A partir desta segunda-feira (6), representantes da indústria e do agronegócio brasileiro participam de audiências públicas no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) para tentar barrar uma tarifa adicional de 25% sobre exportações brasileiras.
O argumento central une setores distintos: a sobretaxa prejudicaria não apenas exportadores brasileiros, mas também empresas, cadeias produtivas e consumidores americanos.
O prazo é curto: Washington decide em 15 de julho se avança com a medida.
O que cada setor vai argumentar em Washington
Pelo menos dez entidades brasileiras participam das audiências, que integram o processo da Seção 301 da legislação americana — mecanismo que permite ao governo dos EUA investigar práticas comerciais de parceiros. A Fiesp vai demonstrar que os segmentos paulistas mais expostos à tarifa são justamente os de maior valor agregado: máquinas, autopeças, alimentos industrializados, móveis e manufaturados.
Roberto Azevêdo, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp e ex-diretor-geral da OMC, sintetiza a posição: “Essa tarifa não faz sentido do ponto de vista econômico. Ela não vai resolver os problemas apontados pelo USTR. Pelo contrário, vai aumentar os custos das cadeias produtivas no Brasil e nos Estados Unidos, elevar os preços para o consumidor e prejudicar as empresas dos dois países.”
A CNI segue a mesma linha. Para a gerente de Comércio Internacional Constanza Negri, não há evidências de discriminação contra empresas americanas no Brasil: “Essas medidas não têm justificativa em nenhum dos três planos: jurídico, econômico ou estratégico.”
Máquinas e siderurgia: cadeias integradas em risco
A Abimaq levanta um dado revelador: 82% das exportações brasileiras de máquinas para os EUA ocorrem entre empresas do mesmo grupo econômico — matrizes americanas e filiais brasileiras. Taxar esse fluxo significa encarecer componentes que a própria indústria americana consome. Em 2025, as tarifas já causaram queda superior a 9% nessas exportações. Na siderurgia, o Sindifer alerta que o ferro-gusa brasileiro — produzido com carvão vegetal de florestas plantadas — abastece siderúrgicas americanas sem substituto equivalente, com 83% da produção nacional destinada aos EUA.
Segundo levantamento anterior à audiência, 66 dos 80 participantes confirmados devem se posicionar contra as tarifas — e ainda assim a CNI já projetava que as sobretaxas seriam mantidas, com ajustes apenas pontuais. Se a proposta passar, 31,6% das exportações brasileiras para os EUA passarão a ser taxadas em 37,5% — quase quatro vezes a alíquota atual de 10%.
Agro na audiência: mel, café e pescados sob ameaça
No agronegócio, três segmentos estratégicos — mel, café solúvel e pescados — marcaram presença nas audiências. O caso do mel é um dos mais emblemáticos: o Brasil responde por até 83% do mel orgânico importado pelos EUA, mas o produto ficou fora da lista de isenções americanas.
A CNA, que representa mais de 5 milhões de produtores rurais, defende que os acordos comerciais brasileiros com México e Índia seguem as regras da OMC e respondem por apenas 1,9% das importações brasileiras — enquanto os EUA seguem como segundo maior fornecedor do mercado brasileiro. A entidade propõe como alternativa o fortalecimento da cooperação em agricultura sustentável, biocombustíveis e facilitação do comércio.
Enquanto as audiências ocorrem, equipes técnicas dos dois governos devem se reunir ainda esta semana para preparar uma última rodada de negociações de alto nível. O Brasil já entregou resposta formal ao USTR na quarta-feira (1º): o documento, assinado pelo chanceler Mauro Vieira, rebate as críticas americanas ao Pix e a decisões do STF, classificando-as como divergências sobre políticas internas, não sobre comércio.
Azevêdo reconhece que a defesa técnica, por mais consistente que seja, não basta: “É necessário que as instâncias políticas estejam constantemente envolvidas para buscar uma solução.” Para o setor privado, o maior temor já não é só a tarifa em si — é a imprevisibilidade. “As empresas não sabem a qual tarifa estarão sujeitas”, afirmou Constanza Negri, da CNI.
