Uma investigação com dados de rastreamento de celulares comprovou pela primeira vez o envolvimento direto dos Emirados Árabes Unidos no apoio a mercenários colombianos que lutaram ao lado das Forças de Apoio Rápido (RSF) no Sudão.
Segundo o Conflict Insights Group (CIG), os combatentes foram peça-chave na captura de El-Fasher, cidade do Estado de Darfur do Norte, em outubro de 2025 — ação que desencadeou uma das piores crises humanitárias do mundo, com dezenas de milhares de mortos e milhões de deslocados.
A investigação foi conduzida pela Conflict Insights Group (CIG), organização de análise de segurança que usou tecnologia comercial de rastreamento publicitário para monitorar mais de 50 aparelhos celulares no Sudão entre abril de 2025 e janeiro de 2026. Os dados foram cruzados com registros de voos, imagens de satélite, vídeos de redes sociais e documentos acadêmicos.
O trajeto dos combatentes pôde ser reconstituído desde a Colômbia até uma base de treinamento militar em Ghayathi, Abu Dhabi, e daí para zonas de conflito no Sudão. Um celular rastreado desde Bogotá chegou ao Aeroporto Internacional Zayed, em Abu Dhabi, e seguiu para o centro de treinamento — onde outros quatro aparelhos estavam configurados em espanhol. Dois deles foram transportados para o Estado de Darfur do Sul e outro chegou a Nyala, capital de fato das RSF, conectando-se às redes de wi-fi “ANTIAEREO” e “AirDefense”.
A brigada Lobos do Deserto
Os mercenários operavam como parte da brigada Lobos do Deserto, atuando como pilotos de drones, instrutores e membros da artilharia. A unidade é liderada pelo coronel aposentado colombiano Álvaro Quijano, residente nos Emirados Árabes Unidos e sancionado por EUA e Reino Unido por recrutar colombianos para o conflito sudanês.
A CIG identificou mais de 40 aparelhos configurados em espanhol em Nyala e documentou atividade expressiva de drones na região. Durante a tomada de El-Fasher pelas RSF, um celular rastreado conectou-se à rede “ATACADOR”; outro estava associado às redes “DRONES” e “LOBOS DEL DESIERTO”. A empresa que empregou e pagou a brigada tem sede nos Emirados e vínculos documentados com altos funcionários do governo emiradense, segundo o portal colombiano La Silla Vacía e documentos obtidos pela CIG.
A queda de El-Fasher foi marcada por atrocidades em massa. O promotor do Tribunal Penal Internacional (TPI) classificou os atos como crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Pesquisadores da ONU descreveram os eventos como tendo \”características de genocídio\”. \”A CIG considera que a rede de mercenários dos EAU e da Colômbia tem responsabilidade conjunta por estes fatos\”, afirma o relatório.
\”A magnitude das atrocidades e o cerco a El-Fasher não teriam ocorrido sem as operações com drones proporcionadas pelos mercenários\”, declarou Justin Lynch, diretor da CIG, ressaltando que há provas de que os combatentes também colaboraram diretamente com o bloqueio da cidade.
Sanções, negativas e repercussão
Os Estados Unidos impuseram sanções a cidadãos colombianos e empresas ligadas à rede em duas rodadas — em dezembro de 2025 e em meados de abril de 2026. O Departamento do Tesouro americano reconheceu o papel dos colombianos na tomada de El-Fasher, mas evitou estabelecer conexão direta com os Emirados. Estimava-se anteriormente que havia poucas centenas de combatentes colombianos no Sudão.
Os Emirados Árabes Unidos seguem negando qualquer envolvimento com as RSF, classificando as acusações de \”falsas e infundadas\”. O presidente colombiano Gustavo Petro já havia chamado os mercenários de \”espectros da morte\” e seu recrutamento de \”uma forma de tráfico de pessoas\”. A CIG também identificou presença de combatentes colombianos em um porto da Somália e em uma cidade no sudeste da Líbia — dois pontos logísticos ligados ao fluxo de armas para as RSF supostamente viabilizado pelos Emirados.