A valorização do ouro em 2025 fortaleceu governos militares e grupos armados no Sahel, África Ocidental. O metal tornou-se fonte vital de recursos para Mali, Níger e Burkina Faso, alimentando conflitos e dificultando o rastreamento de sua origem.
Enquanto parte do ouro segue para os Emirados Árabes Unidos e Reino Unido, a falta de padrões éticos unificados e fiscalização rigorosa permite que o chamado “ouro de sangue” continue financiando violência e instabilidade regional.
Ouro, conflitos e instabilidade no Sahel
A demanda global por ouro aumentou diante da incerteza econômica internacional, elevando os preços e tornando o metal um ativo seguro para investidores. No Sahel, essa valorização transformou o ouro em tábua de salvação para juntas militares de Mali, Níger e Burkina Faso, que enfrentam insurgências jihadistas, isolamento regional e impactos das mudanças climáticas.
Segundo o Conselho Mundial do Ouro, os três países produzem cerca de 230 toneladas anuais, movimentando aproximadamente US$ 15 bilhões. A produção real pode ser ainda maior, já que a mineração artesanal e em pequena escala frequentemente não é registrada. A região tornou-se, assim, um dos principais fornecedores mundiais de ouro.
Governos locais alegam que a renda do ouro promove soberania, mas empresas russas, como o Grupo Yadran, ampliam sua atuação no setor. Burkina Faso, por exemplo, exige participação estatal em operações estrangeiras e investe em refinarias próprias. Campanhas de desinformação, inclusive com o uso de IA, exaltam líderes militares como Ibrahim Traoré.
Financiamento de conflitos e violações de direitos
Boa parte dos recursos do ouro é direcionada à segurança, com gastos militares no Mali triplicando desde 2010 e atingindo 22% do orçamento em 2020. Grupos armados, incluindo jihadistas ligados à al-Qaeda e ao Estado Islâmico, e mercenários como o grupo Wagner e a Africa Corps, também lucram com o ouro, recebendo pagamentos ou concessões de mineração. Relatórios da Human Rights Watch documentam graves violações de direitos humanos cometidas tanto por governos quanto por milícias e mercenários.
O controle de minas artesanais é disputado por governos e grupos armados. A extração, muitas vezes informal e sem licença, facilita o financiamento de militantes e amplia a influência territorial desses grupos.
Rastreamento, padrões éticos e desafios globais
O ouro extraído no Sahel, em grande parte, é enviado aos Emirados Árabes Unidos, um centro global de refino e comércio. De lá, segue para a indústria de joias, odontologia e metais preciosos, chegando ao Reino Unido e outros mercados. Segundo Alex Vines, do Chatham House, rastrear a origem do ouro é quase impossível, pois ele é fundido no início da cadeia de valor, diferentemente dos diamantes.
Autoridades dos Emirados Árabes afirmam possuir uma forte estrutura regulatória, com procedimentos contra lavagem de dinheiro e auditorias anuais, seguindo ou até excedendo orientações da OCDE. No entanto, a execução dessas normas é historicamente irregular, e padrões éticos ainda são voluntários no país.
O sistema de certificação internacional, como o Processo de Kimberley, foi eficaz para diamantes, mas não se aplica ao ouro, pois não foi desenhado para lidar com governos nacionais. A ausência de um “teste de DNA” para o metal e a falta de padrões globais dificultam o combate ao “ouro de sangue”.
Impactos para trabalhadores e comunidades
Mineradores artesanais, como um trabalhador anônimo de Kidal, Mali, relatam que seus ganhos não acompanham a alta global dos preços. O lucro adicional vai para donos de minas e intermediários, enquanto os riscos e a precariedade permanecem para os trabalhadores locais. O aumento do valor do ouro prolonga os conflitos e pouco beneficia as populações afetadas.