O governo federal lança nesta segunda-feira (4) o Novo Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas para quem ganha até R$ 8.105. O endividamento das famílias atingiu 49,9% da renda em fevereiro — o maior nível desde o início da série histórica do Banco Central, em 2005.
Em março de 2026, 82,8 milhões de brasileiros estavam com o nome negativado, segundo a Serasa. O total de dívidas no país somava cerca de R$ 557 bilhões, com valor médio de R$ 6.728,51 por pessoa endividada.
Perfil da inadimplência: jovens, mulheres e desigualdade regional
O cenário atual é fruto de uma expansão acelerada do crédito. O Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central, divulgado em abril, já havia acendido o sinal de alerta: 130 milhões de pessoas com limites ativos e saldo de R$ 400 bilhões no rotativo revelaram a dimensão do problema. Em quatro anos, 32 milhões de brasileiros passaram a acessar produtos financeiros — crescimento de 34% no período.
Em dezembro de 2024, mais de 73 milhões estavam com o nome negativado. Já os dados do BC mostram que 18,9 milhões acumulam atrasos superiores a 90 dias — alta de 47% entre 2020 e 2024, ritmo acima da expansão do crédito no mesmo intervalo.
A inadimplência não é uniforme pelo país. O Amapá lidera com 65,1% da população adulta em atraso; Distrito Federal (62,7%), Amazonas (60,1%) e Mato Grosso do Sul (59,5%) aparecem na sequência. Santa Catarina registra o menor índice: 40,4%.
Jovens entram mais cedo no crédito — e inadimplência acompanha
A idade média de entrada no sistema financeiro caiu de 35 anos, em 2020, para 20 anos em 2024. Quase 40% dos jovens atrasam pagamentos no rotativo ou no parcelamento do cartão de crédito. No consignado — produto com juros menores —, o atraso entre jovens é mais que o dobro do registrado entre adultos.
As mulheres representam 50,6% dos inadimplentes, comprometem 25,3% da renda com dívidas (ante 24,1% dos homens) e destinam 7,1% ao pagamento de juros do cartão — contra 5,6% dos homens. Aparecem com mais frequência entre os endividados de risco: 15,4%, contra 12,1% dos homens. Seis em cada dez relatam forte pressão financeira no dia a dia.
O que prevê o Novo Desenrola
O programa, anunciado pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem quatro categorias e cobre dívidas contraídas até 31 de janeiro de 2026 com atraso entre 90 dias e dois anos — incluindo cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal e Fies. Os descontos variam de 30% a 90%, com juros limitados a 1,99% ao mês.
O trabalhador poderá usar até 20% do saldo do FGTS para abater a dívida. Para evitar desvios, a Caixa transfere o valor diretamente ao banco credor, sem passar pelas mãos do devedor.
O Novo Desenrola não surgiu do nada: em meados de abril, o governo já havia anunciado um pacote emergencial de R$ 78 bilhões do qual o programa de renegociação era a peça central — uma resposta à inadimplência que precisava chegar antes de outubro.
Uma das condições do programa também chama atenção: quem aderir fica impedido de usar plataformas de apostas online por um ano. A medida tem respaldo em evidências — levantamentos anteriores já identificavam as bets como aceleradores do endividamento entre famílias de baixa renda. Para participar, é necessário procurar os canais oficiais das instituições financeiras.
