Mais da metade dos adultos brasileiros está com o CPF negativado. O número, extraído do Mapa da Inadimplência, reflete uma deterioração acumulada em dez anos que hoje corrói a percepção sobre a economia e sobre o próprio governo federal.
Para reverter o quadro antes das eleições de outubro, o Palácio do Planalto prepara um pacote emergencial com novo Desenrola, liberação de FGTS e antecipação do 13º do INSS — medidas que devem injetar R$ 78 bilhões na economia até maio.
Por que tantos brasileiros não conseguem pagar as dívidas
A inadimplência não é fenômeno recente, mas o ritmo de crescimento na última década a tornou estrutural. O economista Daniel Sousa, professor do Ibmec e comentarista da GloboNews, aponta os juros elevados como principal agravante: no Brasil, a taxa básica opera em patamar que inviabiliza o refinanciamento para grande parte da população.
O problema é ainda mais agudo no crédito rotativo do cartão. A raiz dos juros abusivos está nessa modalidade, que chegou a 436% ao ano — trinta vezes a taxa Selic —, prendendo cerca de 40 milhões de brasileiros numa das linhas de crédito mais caras do mundo.
O diagnóstico do Banco Central é igualmente alarmante: quase 130 milhões de pessoas — 74% dos brasileiros com conta em banco — encerraram 2024 com alguma dívida ativa, e o saldo do rotativo bateu recorde histórico de R$ 400 bilhões.
Sousa alerta para o risco de uma crise sistêmica de endividamentos, em que a incapacidade de honrar compromissos se retroalimenta, compromete o consumo, o crédito e, por extensão, o crescimento econômico do país.
A operação resgate e o calendário eleitoral
A urgência do pacote tem endereço certo: outubro de 2026. O novo programa de refinanciamento já vinha sendo costurado desde março, quando o ministro Dario Durigan recebeu de Lula a missão de atacar o endividamento antes das urnas — contexto que explica a velocidade com que a proposta ganhou forma.
A estratégia combina três frentes: o Desenrola volta com condições facilitadas para renegociação de dívidas; a liberação de recursos do FGTS e a antecipação do 13º salário do INSS buscam injetar liquidez imediata nas famílias mais vulneráveis, permitindo que parte da população quite compromissos sem recorrer a novas linhas de crédito caras.
Juntas, as medidas preveem R$ 78 bilhões circulando na economia até maio — volume que o governo espera ser suficiente para reduzir os índices de inadimplência e melhorar a percepção do eleitor sobre a gestão econômica.
O risco, apontado por especialistas, é que sem queda consistente dos juros os programas de renegociação resolvam o problema no curto prazo mas não impeçam novos ciclos de endividamento. A sustentabilidade do alívio depende da trajetória da Selic — variável fora do controle imediato do Planalto.
