O Banco Central classificou nesta segunda-feira (13) o superendividamento como um problema crescente no Brasil. Segundo o Relatório de Cidadania Financeira, quase 130 milhões de pessoas — cerca de 74% da população com relacionamento bancário — encerraram 2024 com alguma dívida junto a instituições financeiras.
O diagnóstico coincide com a elaboração, pelo governo Lula, de um pacote de medidas para aliviar o peso das dívidas sobre as famílias brasileiras em ano eleitoral.
Crédito fácil e caro como combustível do endividamento
O BC identificou uma expansão expressiva de modalidades de crédito sem garantia nos últimos anos — empréstimos que, por não exigirem bens como colateral, cobram juros significativamente mais altos.
O cartão de crédito lidera o problema. Os empréstimos via rotativo quase atingiram R$ 400 bilhões em 2025 — o maior volume da série histórica do BC, consolidando a modalidade como principal vetor do superendividamento das famílias. O crescimento foi especialmente acelerado após a pandemia da Covid-19.
Cheque especial e crédito consignado também figuram no radar: cada modalidade conta com cerca de 24 milhões de clientes e registrou crescimento de aproximadamente 20% no período analisado. Já os financiamentos com garantia real seguiram trajetória distinta — o imobiliário cresceu 23%, enquanto o automotivo avançou apenas 3%, ambos com menos de 10 milhões de clientes cada.
O dado do BC confirma tendência já sinalizada por pesquisa da CNC: em março, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas, o maior percentual da série histórica.
Medidas do governo para refinanciamento
Para enfrentar o quadro, o governo elabora programa que permitirá consolidar dívidas de cartão, crédito pessoal e cheque especial em contrato único, com descontos que vão de 30% a 80% nos juros — e possibilidade de alcançar 90% em casos específicos. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou as duas frentes da estratégia.
Também está em análise a autorização para que trabalhadores usem recursos do FGTS para quitar dívidas, com limites estabelecidos para evitar o esvaziamento do fundo.
Impacto vai além das finanças
O Banco Central ressaltou que o avanço do endividamento tem causado impacto psicológico profundo e abrangente na vida dos brasileiros. A instituição aponta que o problema não decorre apenas do comportamento do consumidor, mas de um modelo de oferta de crédito que, muitas vezes, ignora o perfil real do tomador.
Segundo o BC, a ausência de proteção adequada ao consumidor e de programas efetivos de educação financeira contribui para que milhões de pessoas assumam compromissos que excedem sua capacidade de pagamento. A autoridade monetária defende que as instituições financeiras têm responsabilidade ativa nesse processo — e que uma oferta de crédito irresponsável alimenta o ciclo do superendividamento.
O relatório foi divulgado em um contexto politicamente sensível: o governo Lula busca apresentar soluções concretas para o bolso dos brasileiros antes das eleições de 2026, e o pacote de refinanciamento de dívidas deve ser anunciado nas próximas semanas.
