Oito em cada dez famílias brasileiras estavam endividadas em março — o maior índice já registrado desde 2010 pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC. Ao todo, 80,4% dos lares do país carregam dívidas, enquanto 81,7 milhões de pessoas figuram como inadimplentes nos birôs de crédito, segundo a Serasa.
Cartões de crédito, juros estratosféricos no rotativo e a explosão das plataformas de apostas virtuais — as bets — formam a tríade que alimenta a crise financeira das famílias e ameaça se tornar passivo eleitoral para o governo Lula em outubro.
O peso dos números
Os dados da Peic/CNC mostram que 29,6% das famílias tinham dívidas em atraso em março e 12,3% declararam não ter condição alguma de honrar os compromissos. O pagamento de parcelas compromete, em média, 29,6% da renda familiar — quase um terço dos ganhos mensais antes de qualquer outro gasto.
O cartão de crédito domina o endividamento, presente em 84,9% dos lares com dívida. Vêm em seguida crediários do varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%). O rotativo do cartão cobra juros médios de 435,9% ao ano, segundo o Banco Central — embora uma norma em vigor desde 2024 limite o crescimento da dívida ao dobro do valor original. Pesquisa Datafolha de 18 de abril reforça: 67% dos brasileiros dizem ter dívidas financeiras e 27% usam o rotativo com alguma frequência.
Bets e o espiral sem saída
Nicole, 21 anos, moradora do interior da Bahia, está com o nome negativado em cinco bancos — todos por empréstimos tomados para continuar apostando. O vício, iniciado em 2023 após clicar no link de uma influenciadora no Instagram, destruiu seu casamento e sua saúde mental, diz ela. Desempregada e dependente do Bolsa Família, estima ter mais de R$ 10 mil em dívidas e não vê perspectiva de quitá-las.
Otávio, 39 anos, empresário mineiro, foi mais fundo: queimou toda a poupança, vendeu o carro por R$ 35 mil — 80% do valor voltou direto para apostas — e acumula hoje cerca de R$ 30 mil em dívidas, após ter perdido mais de R$ 100 mil nas plataformas.
Kauê Lopes dos Santos, professor da Unicamp e autor do livro Parcelado (Editora Fósforo), vê nas bets um catalisador do endividamento estrutural: “O sujeito que está endividado e vai buscar dinheiro fácil acredita na promessa das apostas, se endivida mais ainda e tem que recorrer ao cheque especial e a linhas de crédito com taxas ainda mais altas.”
O próprio Banco Central já havia classificado o superendividamento como problema crescente: 130 milhões de pessoas — 74% dos correntistas do país — encerraram 2024 com alguma dívida ativa, com o rotativo do cartão beirando R$ 400 bilhões em volume histórico.
Desenrola 2 no horizonte, mas especialistas pedem mais
Em resposta ao recorde, o governo prepara uma segunda edição do Desenrola. Entre as medidas em estudo está a liberação de até R$ 7 bilhões do FGTS para quitação de dívidas. Um pacote emergencial de R$ 78 bilhões foi anunciado combinando o novo Desenrola, liberação de FGTS e antecipação do 13º do INSS — medidas projetadas para injetar alívio na economia até maio.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, recebeu de Lula a missão prioritária de atacar o endividamento antes das eleições de outubro. O programa deve contemplar tanto pessoas físicas quanto empresas, segundo Durigan.
Especialistas, porém, são céticos quanto ao alcance das medidas. Estudo da MB Associados revela que a primeira versão do Desenrola reduziu a inadimplência em 2 a 3,5 pontos percentuais — mas o efeito evaporou em 18 meses, com os índices retornando ou superando os níveis anteriores. “O Desenrola funcionou como uma limpeza pontual de carteira, sem alterar os determinantes estruturais do endividamento”, avalia o economista Sergio Vale.
Para Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, a mudança real exigiria educação financeira, maior transparência nos custos do crédito, mais competição bancária e, sobretudo, queda dos juros básicos. “O governo precisa equilibrar o orçamento, porque é o desequilíbrio das contas públicas que joga a Selic a 15%”, afirma. A Selic está atualmente em 14,75% ao ano, ainda em patamar historicamente elevado.
O impacto político começa a aparecer: pesquisa Quaest de 17 de abril mostra que 29% dos brasileiros têm o hábito de apostar em bets. Bárbara, Nicole e Otávio — endividados por razões distintas e com intenções de voto opostas — tinham em comum não saber das medidas em estudo pelo governo quando consultados pela reportagem, revelando o desafio de comunicação que o Planalto enfrenta no ano eleitoral.
