A auditoria externa contratada pelos Correios para analisar as demonstrações financeiras de 2025 lançou uma ressalva grave: os R$ 6,4 bilhões registrados em precatórios podem não refletir o valor real que a estatal deve à Justiça.
O alerta, publicado no Diário Oficial da União, aponta que a empresa não dispõe de um processo de mensuração preciso para seus passivos judiciais — uma lacuna que já forçou ajustes retroativos nos balanços de 2023 e 2024.
Ajustes retroativos expõem falha estrutural
A imprecisão no cálculo das dívidas judiciais obrigou os Correios a reapresentar suas demonstrações de 2023 e 2024, acrescentando R$ 1,6 bilhão em expectativa de perdas em litígios. O setor de contabilidade da estatal confirmou que a medida atendeu à recomendação da Controladoria-Geral da União (CGU).
No mesmo movimento, foram revertidos R$ 144 milhões que haviam sido provisionados em excesso para 2024. O ajuste reduziu ligeiramente o prejuízo registrado naquele ano — de R$ 2,6 bilhões para R$ 2,4 bilhões.
Na quinta-feira (23), a estatal divulgou resultado ainda mais preocupante: prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025, mais de três vezes superior ao de 2024. O número marca o 14º trimestre consecutivo de resultados negativos, série iniciada no quarto trimestre de 2022.
O principal motor do rombo foi o pagamento de precatórios decorrentes de decisões judiciais transitadas em julgado, que saltaram para R$ 6,4 bilhões em 2026 — alta de 55,1% frente a 2024. Representantes da empresa atribuíram R$ 2,63 bilhões desse valor a dívidas herdadas de gestões anteriores. O impacto dos precatórios não ficou restrito ao balanço: o crescimento das despesas judiciais chegou a acionar uma cláusula contratual que bloqueou o próprio faturamento da estatal junto a um sindicato de bancos credores.
Receita cai e provisões trabalhistas pressionam o balanço
A deterioração financeira dos Correios não vem apenas do lado dos passivos judiciais. A receita bruta em 2025 foi de R$ 17,3 bilhões, queda de 11,35% em relação ao ano anterior. O principal responsável pela retração foi a redução de 66% nas encomendas internacionais transportadas.
Para cobrir o risco de novas condenações, a estatal constituiu uma provisão de R$ 2,63 bilhões destinada a possíveis perdas em ações trabalhistas — sobretudo as que discutem o pagamento do adicional de atividade de distribuição e coleta externa (AADC) e do adicional de periculosidade. Esse tipo de reserva é acionado quando a empresa avalia que pode ser obrigada a desembolsar os valores no futuro.
O TCU já havia classificado os Correios como caso de alto risco de sustentabilidade financeira e levado o tema ao Congresso meses antes — contexto que torna ainda mais relevante a ressalva da auditoria sobre a imprecisão nos cálculos de precatórios. A combinação de passivos subestimados, receita em queda e acúmulo de dívidas judiciais coloca em xeque a capacidade da empresa de se estabilizar sem intervenção estrutural.