Os Correios acumularam prejuízo preliminar de R$ 3,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, segundo balancete contábil obtido com exclusividade. A estatal entra no 15º trimestre consecutivo no vermelho, sem previsão de divulgação oficial dos dados.
As receitas operacionais se mantiveram estáveis no período. O rombo foi puxado pela explosão nas despesas financeiras e pelo volume acima do previsto em provisões para perdas judiciais.
Juros e provisões no centro do rombo
As despesas financeiras dos Correios saltaram 312% no primeiro trimestre de 2026, passando de R$ 224 milhões para R$ 925 milhões. O aumento reflete os custos de um empréstimo de R$ 12 bilhões contraído pela estatal no fim de 2025 — operação projetada para gerar R$ 22,4 bilhões em juros ao longo de sua vigência.
As provisões para perdas judiciais — que posteriormente se convertem em precatórios — também superaram a estimativa inicial. A previsão era de R$ 1,2 bilhão, mas o valor executado chegou a R$ 1,4 bilhão, alta de 66,7% em relação ao mesmo trimestre de 2025, quando somaram R$ 834 milhões.
A despesa com pessoal, historicamente apontada como um dos maiores gargalos da estatal, apresentou comportamento mais controlado: subiu de R$ 2,5 bilhões para R$ 2,6 bilhões — alta de R$ 80 milhões na comparação anual.
No total, os gastos ficaram abaixo da estimativa interna. O departamento financeiro havia projetado R$ 7,6 bilhões em despesas para o período; o valor real ficou R$ 200 milhões abaixo — redução de 3%.
O resultado do trimestre dá continuidade ao ciclo iniciado no ano anterior: em 2025, as despesas dos Correios saltaram 37% ao maior patamar desde 2001, com receitas recuando 12%, e o prejuízo chegou a R$ 8,5 bilhões — mais de três vezes o rombo de 2024, de R$ 2,6 bilhões. Leia a análise completa do resultado de 2025.
Internacional em queda, logística em alta
As receitas operacionais ficaram praticamente estáveis no trimestre, mas com movimentos opostos entre segmentos. A principal queda veio das encomendas internacionais: R$ 393 milhões no 1º trimestre de 2025 contra R$ 156 milhões no mesmo período de 2026 — recuo de 60,3%.
A retração é atribuída ao programa Remessa Conforme, lançado em 2023, que passou a cobrar imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, antes isentas — a chamada “taxa das blusinhas”. A fonte, que respondia por 22% da receita total em 2023, caiu para apenas 7,8% em 2025.
Ao longo do ano passado, a receita com encomendas internacionais despencou de R$ 3,9 bilhões para R$ 1,3 bilhão — queda de R$ 2,6 bilhões em um único ano. Veja o histórico completo da queda nas encomendas internacionais dos Correios.
Em sentido contrário, a logística registrou expansão expressiva: a receita saltou de R$ 103 milhões para R$ 258 milhões, crescimento de 150%. Serviços de conveniência avançaram 56%, e as receitas com mensagens cresceram 11,4%, chegando a R$ 1,2 bilhão.
O prejuízo do trimestre confirma um sinal de alarme já visível no início do ano: nos dois primeiros meses de 2026, as estatais federais acumulavam déficit de R$ 4,16 bilhões — o pior início de ano desde 2002 —, com os Correios no centro da deterioração. Entenda o quadro geral das estatais federais.
