A receita dos Correios com encomendas internacionais caiu de R$ 3,9 bilhões em 2024 para R$ 1,3 bilhão em 2025 — uma queda de R$ 2,6 bilhões em apenas um ano, segundo balanço financeiro publicado no Diário Oficial da União nesta quinta-feira (24).
A sangria foi provocada pelo programa Remessa Conforme, do governo federal, que encerrou o monopólio dos Correios na distribuição de encomendas internacionais no Brasil a partir de agosto de 2024.
Em dois anos, a fatia das receitas internacionais no faturamento da estatal despencou de 22% para menos de 8%.
Do monopólio ao colapso em 24 meses
Até agosto de 2024, os Correios operavam, na prática, com exclusividade na distribuição de pacotes vindos do exterior. O Remessa Conforme, criado em 2023 pelo Ministério da Fazenda, mudou esse cenário ao permitir que transportadoras privadas fizessem o frete de mercadorias internacionais pelo território brasileiro.
A medida ficou conhecida popularmente como taxa das blusinhas por instituir um imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 — valor que até então era isento para empresas de e-commerce estrangeiras.
O volume de encomendas transportadas pelos Correios caiu cerca de 110 milhões de objetos nos primeiros nove meses de 2025, em comparação com o mesmo período de 2024. Foram 149 milhões de pacotes entregues até setembro de 2024 contra apenas 41 milhões no mesmo intervalo do ano seguinte.
Em julho de 2024, a estatal ainda movia 21 milhões de pacotes e arrecadava R$ 449 milhões em um único mês. Em setembro de 2025, esse número caiu para 3 milhões de encomendas e R$ 87 milhões em receita — o menor patamar em 23 meses.
Estatal admite falha de reposicionamento estratégico
Documento produzido pela Diretoria Econômico-Financeira dos Correios é direto ao reconhecer a incapacidade da empresa de se adaptar. “A redução da participação de mercado no segmento de encomendas internacionais evidenciou a ausência de reposicionamento negocial da empresa, diante das transformações do comportamento da sociedade”, afirmou a diretora Loiane de Carvalho Bezerra de Macedo.
O relatório descreve um ciclo vicioso em que a perda de clientes levou à deterioração da qualidade operacional, que por sua vez agravou a fuga de contratos. “As negociações com grandes clientes — responsáveis por mais de 50% da receita de vendas — tornaram-se cada vez mais sensíveis, comprometendo acordos e frustrando expectativas de resultado”, completou a diretora.
Enquanto os Correios perdem terreno, o próprio imposto que esvaziou o monopólio da estatal bateu recorde: só em janeiro de 2026, a taxa das blusinhas arrecadou R$ 425 milhões para o governo — 25% acima do mesmo período do ano anterior.
A queda de receita alimenta um ciclo de cortes que ainda não decolou: o plano de demissão voluntária dos Correios, lançado para conter a sangria financeira, acumula apenas 23% da meta de adesões prevista para 2026.
