Saúde

Metade das maiores cidades gasta menos de R$ 100 por habitante em saneamento

Levantamento 2026 aponta abismo de 70 pontos percentuais na coleta de esgoto entre os melhores e piores municípios do país
Lula e o investimento em saneamento básico nas cidades brasileiras

Cinquenta e um dos cem municípios mais populosos do Brasil investem menos de R$ 100 por habitante ao ano em saneamento básico — pouco menos da metade do valor estimado como necessário para universalizar os serviços até 2033.

O dado é do levantamento anual de 2026, elaborado com base nas informações mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), com dados de 2024.

O Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) estima que seriam necessários ao menos R$ 225 por habitante ao ano para garantir acesso amplo a água tratada e coleta de esgoto nas cidades brasileiras.

Abismo entre melhores e piores municípios

A diferença de investimento tem impacto direto na qualidade dos serviços. Nos 20 municípios mais bem posicionados no ranking, a média de coleta de esgoto chega a 98,08% — índice próximo da universalização. Já entre os 20 piores colocados, o índice despenca para 28,06%, uma diferença superior a 70 pontos percentuais.

O contraste se repete no tratamento do esgoto coletado. Entre os municípios líderes, cerca de 77,97% do esgoto gerado recebe tratamento. Nos piores colocados, a média cai para 28,36% — menos de um terço do total produzido.

Quando se compara o aporte financeiro entre 2020 e 2024, os 20 melhores municípios investiram em média R$ 176,17 por habitante ao ano. Os 20 piores aplicaram apenas R$ 77,58 — menos da metade do valor dos líderes.

Perda de água e déficit de cobertura

Além dos dados de esgoto, o levantamento revela outro gargalo crítico: a perda de água na rede de distribuição. Em média, 41,5% da água produzida pelos municípios analisados se perde antes de chegar às residências — índice muito acima do limite de 25% considerado aceitável para o sistema.

O déficit de cobertura é expressivo: mais de 30 milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso à água potável, enquanto a coleta de esgoto não alcança cerca de 90 milhões de pessoas — o equivalente a 43,3% da população nacional.

Meta de 2033 exige esforço consistente

O Marco Legal do Saneamento Básico estabelece a universalização dos serviços de água e esgoto até 2033 como meta central da política federal. Para especialistas do setor, alcançar esse objetivo dependerá de aumento consistente de investimentos e de maior capacidade de planejamento e gestão nas cidades brasileiras.

O estudo aponta que municípios de melhor desempenho provam que a universalização é alcançável. “O empate nas quatro primeiras colocações do ranking traz uma mensagem positiva: há cidades que estão cumprindo seu papel, alcançando elevados níveis de atendimento e eficiência, o que reforça que a universalização é viável quando há planejamento, investimentos contínuos e boa gestão”, afirmou um dos responsáveis pelo levantamento.

Mesmo entre as grandes cidades — que costumam apresentar indicadores melhores do que a média nacional — os desafios persistem. O estudo aponta a desigualdade regional no acesso ao saneamento como um dos principais obstáculos para o cumprimento das metas na próxima década.