O uso de programas de monitoramento em home office, como Teramind e XOne, ganhou destaque após demissões no Itaú. Funcionários relataram surpresa com o nível de vigilância, enquanto o banco afirma que tudo estava previsto em contrato. O Ministério Público do Trabalho investiga o caso, reacendendo discussões sobre privacidade e limites legais.
Monitoramento digital e impactos no ambiente de trabalho
O episódio envolvendo o Itaú trouxe à tona o funcionamento de softwares de monitoramento digital. Segundo a BBC News Brasil, o banco analisou o uso de mouse, teclado, chamadas de vídeo, mensagens, cursos e aplicativos durante quatro meses, mas negou capturas de tela, áudio ou vídeo para não violar a LGPD. Ainda assim, ferramentas de vigilância foram utilizadas para acompanhar a rotina dos colaboradores.
O pesquisador Pedro Henrique Santos, da Data Privacy Brasil, destaca que a LGPD não proíbe o monitoramento, mas exige consentimento e comunicação clara. Ele afirma: “O monitoramento faz parte da relação trabalhista e o empregador tem esse direito. O uso da tecnologia não é necessariamente ruim. Mas é preciso comunicar da forma mais transparente possível, disponibilizando canais de informação e explicando já no momento da contratação.”
Estudo de Fabrício Barili (Unisinos) aponta que essas plataformas podem aumentar a disputa entre trabalhadores para manterem seus empregos. O trabalho cita a Teramind como focada em comportamento que pode comprometer a segurança da empresa, e não apenas em produtividade.
O Ministério Público do Trabalho instaurou procedimento investigatório em 16/09, solicitando esclarecimentos ao banco sobre as demissões e o uso dos softwares.
Funcionalidades dos softwares e repercussão entre funcionários
Ferramentas e métodos de vigilância
A BBC News Brasil testou as plataformas XOne e Teramind. A Teramind permite monitoramento em tempo real da tela dos funcionários, histórico de sites, controle remoto do computador, atividades em redes sociais e identificação automatizada de comportamentos não autorizados. A plataforma mostra rankings de produtividade e alerta para sites de busca de emprego ou envio de informações sensíveis. A empresa recomenda que questões legais sejam verificadas localmente e não aconselha clientes juridicamente.
Já a XOne, desenvolvida pela Arctica, permite identificar sites acessados, tempo de inatividade, geolocalização dos computadores e ranking de aderência à jornada de trabalho. A empresa afirma que não grava telas nem captura comunicações pessoais e que a responsabilidade de avisar funcionários é do empregador.
Repercussão e relatos de pressão
Após as demissões no Itaú, relatos de funcionários indicam aumento da pressão e medo de serem considerados inativos. Um ex-funcionário afirmou que colegas passaram a levar o computador até para beber água, temendo monitoramento. Essa pressão já foi documentada em estudos acadêmicos.
Em 2022, ações trabalhistas mencionaram o uso da Teramind para controle de jornada e atendimento ao cliente, mas a empresa não foi parte dos processos. O debate sobre limites e transparência no uso dessas ferramentas segue em pauta.