Especialistas apontam que empresas ainda têm dificuldades para medir a produtividade dos funcionários em home office. O tema ganhou destaque após demissões no Itaú Unibanco, que adotou monitoramento digital para avaliar desempenho. A busca por métodos eficientes de acompanhamento gera debates sobre confiança, autonomia e impactos no ambiente de trabalho.
Dificuldades e estratégias para mensurar produtividade
A adoção do home office trouxe benefícios como flexibilidade e redução de deslocamento, mas também levantou dúvidas sobre como avaliar o desempenho fora do escritório. Muitos gestores relatam dificuldades para acompanhar atividades e resultados sem supervisão direta, tornando menos clara a percepção do esforço e da entrega dos colaboradores.
Algumas empresas têm investido em softwares de monitoramento e indicadores de desempenho, mas especialistas alertam que essas soluções podem gerar desconfiança e afetar negativamente o clima organizacional. A produtividade, segundo eles, não deve ser medida apenas pela quantidade de horas trabalhadas, mas também pela qualidade e pelos resultados alcançados.
O caso Itaú Unibanco
Desde 2022, o Itaú Unibanco relançou sua cultura organizacional e adotou modelo flexível de trabalho, com 60% dos funcionários em regime híbrido ou remoto. O banco monitora eletronicamente a jornada de trabalho home office, em acordo com sindicatos e dentro da legislação vigente. Em quatro meses de análises, foram identificados colaboradores com baixos níveis de atividade digital e registro de horas extras, levando ao desligamento de alguns, mesmo com boa avaliação de performance. O banco afirma que o monitoramento respeita a LGPD e não inclui captura de telas, áudios ou vídeos, considerando pausas e necessidades individuais.
Após as demissões, grandes empresas consultadas preferiram não comentar suas práticas de monitoramento.
Debate sobre métodos e impactos
Segundo o professor Marcelo Graglia, da PUC-SP, métodos tradicionais de mensuração, como produção por hora, funcionaram por décadas, mas o trabalho remoto exige novas abordagens. Ele alerta que algoritmos de monitoramento são essencialmente quantitativos e podem gerar decisões injustas se usados como única métrica.
Thatiana Cappellano, consultora de trabalho, defende que avaliar produtividade apenas pelo tempo diante do computador é arcaico. O ideal é medir entregas e qualidade do trabalho. O controle excessivo pode gerar ansiedade, burnout e perda de talentos, além de corroer a confiança entre empresa e empregado.
Particularidades por área e alternativas
A professora Luciana Morilas, da USP, destaca que cada área exige métricas específicas e que o RH, ao lidar com grandes volumes de funcionários, pode adotar abordagens padronizadas ineficazes. Ela sugere gestão mais próxima e individualizada, com políticas claras de comunicação e feedbacks. Tatiana Iwai, do Insper, recomenda check-ins regulares e acompanhamento das entregas como alternativas ao monitoramento rígido.
Impactos no mercado
O desligamento de 1 mil trabalhadores do Itaú pode influenciar outras empresas a questionarem o home office. Dados do Insper mostram que, mesmo com redução após a pandemia, o modelo remoto segue relevante, especialmente em tecnologia. Especialistas alertam que controles rígidos podem prejudicar a confiança e sugerem buscar métodos menos invasivos para acompanhar o desempenho.