Representantes de quase 180 países participam de conferência em Genebra, na sede da ONU, para negociar o primeiro tratado global de combate à poluição plástica. O evento, que ocorre ao longo de dez dias, busca estabelecer regras obrigatórias para reduzir produção, incentivar reciclagem e proteger ecossistemas. Divergências sobre responsabilidades e prazos dificultam o avanço das negociações.
Negociações e impasses internacionais
A conferência em Genebra marca uma etapa decisiva para a criação de um tratado internacional juridicamente vinculante que responsabilize países e empresas pela poluição plástica. O texto está em discussão há três anos e precisa ser aprovado por consenso. Em novembro passado, as negociações em Busan fracassaram devido ao bloqueio de países produtores de petróleo. Agora, mais de 100 nações defendem a redução global da produção de plástico e a eliminação gradual de produtos químicos e plásticos descartáveis. Contudo, países como Arábia Saudita, China, Rússia e Irã resistem a restrições e preferem foco em gestão e reciclagem. Os Estados Unidos apoiam uma versão menos ambiciosa, sem cortes na produção.
O presidente dos debates, o diplomata equatoriano Luis Vayas Valdivieso, alertou para a gravidade do problema, afirmando que a poluição plástica ameaça ecossistemas, saúde humana e populações vulneráveis. Segundo relatório publicado na revista The Lancet, o custo global da crise chega a US$ 1,5 trilhão por ano. Valdivieso destacou que o acordo não será alcançado automaticamente e que ONGs terão acesso aos grupos de contato para discutir temas sensíveis, como proibição de substâncias químicas e limites de produção.
Pressão da sociedade civil e da ciência
Organizações não governamentais e cientistas têm pressionado por medidas mais rígidas. O médico Philip Landrigan, do Boston College, alertou que crianças são as mais afetadas pela poluição plástica. Uma instalação artística de Benjamin Von Wong, exposta na entrada da ONU, busca sensibilizar os delegados sobre o impacto do plástico na saúde humana. Segundo Richard Thompson, especialista em lixo marinho, microplásticos já foram encontrados em todos os ambientes do planeta e há evidências de exposição humana desde o útero. Ele defende urgência e ambição nas negociações.
Indústria e alternativas para o futuro
O setor químico, representado por Matthew Kastner, do Conselho Americano da Indústria Química, defende o uso do plástico em equipamentos médicos e embalagens que garantem higiene e segurança alimentar. Por outro lado, Graham Forbes, do Greenpeace, e Seema Prabhu, da ONG Trash Hero World, insistem na necessidade de reduzir a produção e promover uma transição justa, com criação de empregos em reciclagem e reutilização, especialmente no Sudeste Asiático.
Segundo dados do The Guardian, a produção de plástico aumentou mais de 200 vezes desde 1950 e pode triplicar até 2060, ultrapassando 1 bilhão de toneladas anuais, impulsionada principalmente por plásticos descartáveis. O texto final do tratado deve ser apresentado em conferência global prevista para o próximo ano. Até lá, as negociações prosseguem, com expectativa de superar impasses e alcançar um acordo que reflita as demandas ambientais e sociais.