O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu um programa de crédito para financiar a compra de motocicletas elétricas, com foco em entregadores de aplicativo. O anúncio foi feito no último final de semana, mas ainda não há detalhes sobre a implementação. A iniciativa é vista por empresários e especialistas como potencial alavanca para o mercado de motos elétricas, que representa apenas 0,5% das vendas nacionais.
Empresas do setor, como Riba, Vammo e Watts, avaliam que a medida pode acelerar a eletrificação da frota e facilitar a ampliação da produção local.
Mercado de motos elétricas no Brasil
Atualmente, o mercado de motos elétricas no Brasil é pequeno. Em 2025, foram emplacadas 4.803 unidades, o que corresponde a apenas 0,5% das 849.946 motocicletas zero quilômetro vendidas entre janeiro e maio, segundo a Fenabrave. Em comparação, os carros elétricos registraram 24.495 emplacamentos, representando 3,4% das vendas de automóveis de passeio.
Milad Kalume Neto, consultor automotivo, aponta que a ausência de grandes marcas, como Honda e Yamaha, contribui para a baixa adesão. “As 15 motos elétricas listadas pela Fenabrave não possuem nenhuma representante das duas principais marcas tradicionais, que juntas têm mais de 80% do mercado”, diz Kalume Neto. Carlos Augusto Serra Roma, da Riba Brasil e da ABVE, ressalta que apenas cerca de 10 mil motos são 100% elétricas em uma frota superior a 35 milhões.
Desafios de preço e autonomia
O preço e a autonomia são barreiras importantes. A Watts W160S, por exemplo, custa R$ 19.311, valor 17,4% maior que o da Honda CG 160, que parte de R$ 16.440. Em autonomia, a CG 160 percorre até 642,6 km com um tanque, enquanto a Watts W160S oferece até 100 km por carga, exigindo múltiplas recargas para trajetos longos.
Rodrigo Gomes, diretor comercial da Watts, cita outros entraves: “Ainda existem desafios como altos custos logísticos, morosidade operacional, falta de infraestrutura de recarga, carga tributária desfavorável e necessidade de ampliar o conhecimento do consumidor”.
Modelos de negócio e adaptação
Empresas como Riba e Vammo oferecem aluguel de motos elétricas com serviço de troca de baterias em estações, visando contornar a baixa autonomia e alto custo. A Riba opera 100 estações em São Paulo, Belém e outras cidades, enquanto a Vammo mantém 140 pontos na capital paulista e região.
Produção e perspectivas de expansão
No Brasil, as motos elétricas são importadas ou montadas localmente pelo sistema CKD. Kalume Neto observa que a demanda ainda é insuficiente para justificar produção nacional em larga escala, especialmente de baterias, com projeção inferior a 12 mil unidades para 2025.
Empresas como Amazon Motors, DVS, Watts e Shineray atuam no segmento, mas tentativas de fabricação local, como as da Voltz e Origem, fracassaram. A Shineray produz 128 mil motocicletas em Suape (PE) e planeja quadruplicar a capacidade, com investimento de R$ 75 milhões para ampliar a fábrica. A Watts, em Manaus (AM), também afirma ter estrutura modular para rápida expansão, podendo adicionar turnos e espaço físico em até seis meses.
Adaptação e potencial de crescimento
Vammo e Riba importam modelos chineses adaptados para o mercado brasileiro. Carlos Augusto Serra Roma, da Riba, afirma que a produção nacional em CKD deve começar até o fim do ano e que o setor está preparado para atender a um eventual aumento de demanda. “Se houver demanda, podemos ampliar rapidamente a produção. Todos conseguirão atender”, diz Roma.
Empresários avaliam que o programa de crédito pode ser o impulso necessário para acelerar a adoção das motos elétricas, especialmente se for ampliado para outros públicos além dos entregadores. “Os benefícios seriam ainda mais expressivos se o crédito fosse estendido a todos os usuários”, afirma Gomes, da Watts.