O governo Lula prepara um programa para reunir todas as dívidas de pessoas físicas — cartão de crédito, crédito pessoal e outras modalidades — em um único débito, com juros mais baixos e desconto no valor principal que pode chegar a 80%.
O foco é quem ganha até três salários mínimos. Para esse público, Lula tem repetido que as contas consomem praticamente toda a renda ao fim do mês.
A iniciativa se soma ao pacote lançado para conter os efeitos da guerra no Oriente Médio na economia brasileira e entra no calendário político de um ano eleitoral.
O mecanismo previsto é direto: o devedor consolida todas as suas dívidas em uma operação única e as substitui por um novo contrato, com prazo mais longo, taxa menor e, em alguns casos, desconto de até 80% sobre o principal.
Para viabilizar os descontos, os bancos que aderirem ao programa receberão recursos do Fundo de Garantia de Operações (FGO). A garantia serve como proteção às instituições financeiras: se o refinanciamento não for quitado, o fundo cobre o valor renegociado — reduzindo o risco de as instituições recusarem as adesões.
Todo o processo de renegociação acontecerá diretamente entre o devedor e o banco, sem intermediários, para acelerar o atendimento.
A proposta avança sobre as negociações que o Ministério da Fazenda iniciou com os bancos na semana passada, quando o comprometimento de renda das famílias voltou a 29,3% — o maior nível da série histórica do Banco Central.
O programa mira um problema que os dados já expunham: o Brasil fechou 2025 com 19 milhões de pessoas presas no ciclo das dívidas de cartão de crédito, mesmo com emprego em alta e renda recorde.
O anúncio vem na sequência do pacote emergencial para conter o impacto da guerra no Oriente Médio nos preços dos combustíveis — outro vetor de pressão sobre o orçamento das famílias de baixa renda.
O componente eleitoral das medidas não é disfarçado. Lula enfrenta uma fase de aprovação baixa e tem no início de 2026 duas frentes prioritárias para reconquistar a confiança do eleitorado mais vulnerável.
A preocupação com a inflação durante a campanha é outro fator que pesa nas decisões. O governo não quer que a alta de preços corroa o poder de compra antes das eleições — e avalia ainda um pacote separado para evitar que a conta de luz suba demais ao longo do ano.
