O percentual de famílias brasileiras endividadas chegou a 80,4% em março de 2026, o maior nível já registrado pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada nesta terça-feira pela Confederação Nacional do Comércio (CNC).
O índice avançou 0,2 ponto percentual sobre fevereiro e subiu 3,3 pontos em relação a março de 2025, quando estava em 77,1%.
Diante do recorde, o presidente Lula se reuniu com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, para estruturar um programa de refinanciamento com descontos de até 80% no valor principal das dívidas.
CNC acende alerta para os próximos meses
Ao divulgar os dados, a CNC destacou que os números exigem atenção especial diante dos efeitos do conflito no Oriente Médio e do impacto da alta do petróleo sobre o poder de compra dos consumidores. A entidade também citou a escalada dos preços do diesel e de outros combustíveis como fator que amplia as incertezas sobre a inflação.
“A redução gradativa dos juros começou, mas ainda vemos um aumento do nível de famílias endividadas, pois levaremos meses até que o alívio do aperto monetário faça efeito”, afirmou a confederação.
Como funcionará o programa de refinanciamento
A proposta em discussão no governo prevê reunir dívidas de cartão de crédito, crédito pessoal e outras modalidades em um único débito, substituído por uma nova obrigação com juros mais baixos e desconto no principal de até 80% em alguns casos.
Todo o processo de renegociação será conduzido diretamente com os bancos, tornando a operação mais ágil. Para conceder os descontos, as instituições financeiras poderão acessar recursos do Fundo de Garantia de Operações (FGO), que assegura o recebimento caso as dívidas refinanciadas não sejam quitadas.
O público-alvo do programa são trabalhadores que ganham até três salários mínimos. Os juros do cartão rotativo chegaram a 436% ao ano em fevereiro, aprisionando cerca de 40 milhões de brasileiros numa das linhas de crédito mais caras do mercado financeiro.
O presidente tem reiterado que os brasileiros reclamam que, ao fim do mês, as dívidas consomem praticamente toda a renda disponível. O fenômeno tem raízes persistentes: o Brasil fechou 2025 com 19 milhões de pessoas presas no ciclo de endividamento de cartão, mesmo com o desemprego no menor nível histórico e renda média recorde.
A reunião desta terça-feira entre Lula e Durigan avança sobre negociações que o Ministério da Fazenda já havia iniciado com os bancos na semana passada. O comprometimento de renda das famílias voltou a 29,3%, o maior patamar da série histórica do Banco Central, reforçando a urgência do pacote.
O governo definiu o combate ao superendividamento como uma das prioridades deste início de ano. A expectativa é que o programa seja anunciado em breve, na esteira das medidas já adotadas para conter os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre a economia brasileira.
