Política

Flávio Bolsonaro e Zema ainda não definem vice a três dias do prazo

Flávio Bolsonaro anuncia Alfredo Gaspar como vice com foco no escândalo do INSS; Lula repete chapa com Alckmin e Zema segue indefinido
O vice de Flávio Bolsonaro e o de Zema seguem indefinidos a três dias do prazo eleitoral

Às vésperas do prazo final das convenções partidárias, Flávio Bolsonaro (PL) anunciou seu vice na chapa presidencial: o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL). O anúncio foi feito em coletiva de imprensa na quarta-feira (5/8), em Brasília — último dia do período convencional. Romeu Zema (Novo) segue sem parceiro de chapa confirmado.

O prazo para a definição terminou na quarta-feira (5/8), e o registro das candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve ocorrer até o dia 15 de agosto.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) já confirmaram seus vices, enquanto Zema ainda busca um parceiro de chapa.

Chapas já fechadas apostam na repetição e no “puro-sangue”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concorre à reeleição ao lado de Geraldo Alckmin (PSB), a mesma dupla que venceu a eleição de 2022. A candidatura foi oficializada no domingo (2/8), na convenção nacional do PT em São Paulo, uma semana depois de o PSB confirmar Alckmin em evento realizado em Brasília.

No governo, Alckmin acumulou a vice-presidência com o comando do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e teve papel central nas negociações com os Estados Unidos durante o tarifaço imposto por Donald Trump. Na convenção daquele domingo (2/8), ele criticou os ataques da família Bolsonaro às urnas eletrônicas e ironizou a presença do presidente argentino Javier Milei no evento de Flávio Bolsonaro.

Caiado e Renan Santos optam por chapas “puro-sangue”

Ronaldo Caiado (PSD) escolheu o presidente de seu próprio partido, Gilberto Kassab, como vice. A dupla também mira as eleições para o Congresso: a avaliação interna é que a chapa oferece um palanque neutro para candidatos que querem evitar a polarização nacional. No discurso de lançamento, em 26 de julho, Caiado creditou Kassab pela viabilização da candidatura — “eu não seria candidato se não fosse a coragem de Gilberto Kassab” — e enquadrou a dupla como alternativa aos “maiores rejeitados da política nacional”. Ao ser oficializado, Kassab disse que a candidatura é uma alternativa a um sistema político “contaminado”.

Já o Missão fechou chapa com Renan Santos na cabeça de chapa e Aroldo Medina como vice, sem coligação com outra legenda. Medina é militar da reserva, jornalista e editor especializado em história militar, e acumula candidaturas frustradas por quatro partidos diferentes desde 2002.

Flávio escolhe Alfredo Gaspar após neutralidade barrar candidatas mulheres; Zema segue indefinido

A indefinição nas chapas de Flávio e Zema se arrastou desde o início das convenções, em 20 de julho, quando os dois candidatos chegaram ao período sem vice definido. Na campanha de Flávio Bolsonaro, a busca foi orientada por atrair o voto das mulheres, que somam 52,8% do eleitorado.

O candidato do PL se reuniu com a líder do PP no Senado, Tereza Cristina (PP-MS), que sinalizou aceitar a vaga, mas foi barrada pela sigla, que decidiu manter neutralidade na eleição nacional. Na segunda-feira (3/8), o presidente do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), comunicou à campanha do senador que o partido também permaneceria independente — 17 dos 27 diretórios estaduais haviam se manifestado pela neutralidade, decisão que foi referendada em convenção nacional na quarta (5/8). Podemos e União Brasil igualmente anunciaram que ficarão neutros na disputa presidencial.

Nos bastidores, eram especulados os nomes de Daniela Marques (Republicanos), ex-presidente da Caixa no governo Bolsonaro, e da deputada federal Renata Abreu (Podemos-SP), presidente do Podemos. Em ambos os casos, a filiação partidária se tornou um obstáculo após as legendas anunciarem neutralidade. Mesmo sem o apoio formal dessas siglas na disputa nacional, Flávio afirmou contar com o respaldo de lideranças locais desses partidos nos estados.

Diante das limitações impostas pela neutralidade partidária, o PL optou por uma chapa pura. Na quarta-feira (5/8), Flávio Bolsonaro anunciou o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como seu vice. Com 55 anos e nascido em Maceió, Gaspar foi promotor de Justiça, chegou à procuradoria-geral de Justiça de Alagoas e presidiu o Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC); eleito para a Câmara em 2022, ganhou projeção nacional como relator da CPMI do INSS, na qual apresentou, em março de 2026, relatório com mais de 1,2 mil páginas pedindo o indiciamento de mais de 200 pessoas por organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção — relatório rejeitado pela comissão por 19 votos a 12, encerrando a CPMI sem aprovação de texto final. No discurso, Flávio destacou a trajetória do deputado: “É uma pessoa que eu aprendi a admirar, todos vocês aqui aprenderam a admirar pela coragem, honestidade, pela sua história em frente à segurança pública”, afirmou.

Embora hoje figure ao lado do bolsonarismo, Gaspar construiu sua trajetória política dentro do MDB alagoano, próximo ao senador Renan Calheiros e ao ex-governador Renan Filho. Em 2015, foi convidado por Renan Filho para assumir a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas — cargo que deixou em 2016 após decisão do STF que vedou a membros do Ministério Público o exercício de funções no Executivo sem abandono da carreira. Em 2020, deixou o MP para disputar a Prefeitura de Maceió pelo MDB: liderou o primeiro turno, mas foi derrotado por João Henrique Caldas (JHC) no segundo. Após a derrota, retornou ao governo estadual como secretário de segurança. No início de 2022, rompeu com o grupo de Renan Filho, migrou para o União Brasil e foi eleito deputado federal entre os mais votados de Alagoas. Em 2026, filiou-se ao PL e assumiu a direção estadual da sigla.

Para o PL, a escolha de Gaspar é peça central em uma estratégia deliberada de vincular o escândalo dos descontos ilegais em benefícios do INSS ao presidente Lula e ao seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha — que o relatório da CPMI indicou para indiciamento. A alta cúpula do partido avaliou que o escândalo seria um dos principais fatores responsáveis pelo alto índice de rejeição do governo. “Esse vai ser um assunto importante na eleição, e ninguém melhor para tratar desse tema do que o Alfredo”, disse, sob reserva, um integrante da campanha. A pauta de segurança pública e a construção de palanque competitivo no Nordeste completam as apostas estratégicas da chapa.

A indicação traz ainda um efeito colateral favorável para o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL): ao integrar a chapa presidencial, Gaspar deixa a disputa pelas duas vagas ao Senado em Alagoas, retirando o principal concorrente de Lira no campo da direita. Aliados de Jair Bolsonaro afirmam que o ex-presidente havia sinalizado, no ano passado, que o PL não lançaria candidato ao Senado no estado. Questionados sobre o impacto da escolha junto ao eleitorado feminino, aliados afirmam que Michelle Bolsonaro deve intensificar sua participação na campanha nos próximos dias; a ex-primeira-dama acumula um trabalho de mobilização à frente do PL Mulher que, na avaliação da cúpula, formou uma base consistente de apoiadoras nos estados.

O escândalo que orienta a estratégia da chapa ganhou novos desdobramentos judiciais nos dias anteriores ao anúncio. Em 30 de julho, o ministro André Mendonça, do STF, autorizou a abertura de um inquérito para apurar suspeitas de tráfico de influência e corrupção envolvendo Lulinha em negociações relacionadas ao Ministério da Saúde, com foco em atuação em favor de interesses ligados ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Em 31 de julho, um segundo inquérito foi aberto para investigar se Lulinha favoreceu empresários com negócios junto à Dataprev e outros órgãos federais — suspeitas de tráfico de influência, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Na terça-feira (4/8), o ministro Flávio Dino, do STF, autorizou um terceiro pedido de investigação da Polícia Federal envolvendo o filho do presidente em menos de uma semana. Todos os inquéritos derivam de elementos colhidos na operação “Sem Desconto”, que apura fraudes nos descontos aplicados sobre aposentadorias e pensões do INSS. A defesa de Lulinha afirma que ele não tem relação com as irregularidades investigadas, diz confiar na condução do caso pelo ministro Dino e cobra providências contra o que classifica como vazamentos seletivos de informações da investigação.

O evento contou com a presença de Tereza Cristina e de Daniela Marques, as duas mulheres que chegaram a ser ventiladas como possibilidades para a vaga. Tereza Cristina agradeceu o convite, mas disse que não poderia aceitar por questões partidárias. Daniela Marques, por sua vez, falou sobre a importância de políticas voltadas à defesa das mulheres.

Romeu Zema também não teve sucesso nas tentativas de compor chapa. O ex-governador de Minas Gerais chegou a elogiar o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa e tentou atrair o empresário Geraldo Rufino, do Podemos, que acabou confirmado como candidato ao Senado por São Paulo. Segundo fontes do Novo, que só havia oficializado a candidatura de Zema à Presidência na segunda-feira (27/7), a tendência é que o candidato tenha um vice do próprio partido, montando uma chapa puro-sangue.