O número de mulheres à frente de chapas presidenciais caiu pela metade nas eleições de 2026, de quatro para duas candidatas, segundo levantamento do g1 com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ao todo, sete mulheres disputam a Presidência ou a Vice-Presidência neste ano, uma a menos que em 2022. Cientistas políticas atribuem a queda a barreiras históricas e ao controle dos partidos sobre recursos e candidaturas.
Menos mulheres na disputa, apesar do eleitorado majoritariamente feminino
O contraste chama atenção: enquanto as mulheres somam 83,9 milhões de eleitoras e representam 52,84% do eleitorado nacional, apenas duas concorrem à Presidência em 2026. A participação proporcional feminina também recuou: elas ocupam 27% das 26 posições em disputa nas 13 chapas deste ano, ante 36% das 22 vagas em 2022.
Para Hannah Maruci Aflalo, cientista política da USP e pós-doutoranda no Cebrap, a comparação numérica mostra apenas parte do problema. Há ao menos uma mulher em cinco das 13 chapas presidenciais de 2026 — 38% do total, ante 54% em 2018 e 55% em 2022.
Alianças à direita e cotas que não valem para a Presidência
Luciana Santana, professora da Ufal, relaciona o cenário à dificuldade de formar alianças à direita e aos acordos estaduais que repetiram a chapa Lula-Alckmin. O recorde de 12 chapas puro-sangue neste ano, com partidos escolhendo vices da própria legenda em vez de buscar alianças externas, reduziu o espaço de negociação em que nomes femininos costumam surgir. “Esse padrão não pode ser explicado apenas pela disposição individual das mulheres para concorrer”, afirma.
A cota de 30% exigida em eleições proporcionais não alcança as disputas majoritárias, como as de presidente, governador e prefeito. Luciana de Oliveira Ramos, da FGV Direito SP, explica que estender a regra ao Executivo esbarraria na autonomia partidária e na soberania do voto, princípios constitucionais que dificultam mudanças na legislação.
Chapas só de mulheres seguem raras desde 1989
Das 111 candidaturas presidenciais registradas desde 1989, apenas cinco tiveram mulheres nas duas posições — 4,5% do total. Em 2026, duas chapas repetem o recorde de 2022: Samara Martins e Raquel Brício, da UP, e Clariana Barão e Fabiana Torquato, do DC. Clara Araújo, pesquisadora da Uerj, observa que a chapa do DC surgiu depois que alternativas masculinas não prosperaram — sinal de que mulheres ainda raramente são a primeira escolha.
O padrão mais comum é a presença feminina na vice: das 17 candidaturas de mulheres à Presidência, apenas cinco tiveram outra mulher no comando da chapa. Luciana Santana afirma que lideranças femininas já resistem a ocupar esse papel sem poder de decisão: “As mulheres não querem mais estar ali só para enfeitar.”
Debate jurídico sobre verba reservada às candidatas
A reserva mínima de 30% dos recursos públicos e do tempo de propaganda para mulheres também alcança as eleições majoritárias, permitindo que uma vice mulher receba verba destinada ao gênero mesmo em chapa liderada por um homem. Luciana Ramos explica que a questão é juridicamente complexa, já que presidente e vice formam candidatura única: “A chapa é única. Se a vice recebe, ela está trabalhando pela chapa. Mas como isso não beneficia o homem?” Indícios de desvio podem ser apurados por ação judicial eleitoral, com possíveis consequências como devolução de recursos e cassação de diploma ou mandato.