A dívida do setor público consolidado subiu para 81,9% do PIB em junho, o equivalente a R$ 10,8 trilhões — maior patamar em mais de cinco anos, segundo o Banco Central.
O avanço reflete o crescimento dos gastos públicos no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), período em que o endividamento subiu seis pontos percentuais em cerca de dois anos e meio.
Pelo critério do Fundo Monetário Internacional (FMI), usado para comparações internacionais, a dívida brasileira já soma 95,8% do PIB, próxima do recorde histórico de 96,7% registrado em fevereiro de 2021.
Por que o endividamento pressiona os juros
A dívida do setor público consolidado é a soma das obrigações financeiras assumidas pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Quanto maior o indicador em relação ao PIB, maior é percebido o risco de calote do país em momentos de crise — o que eleva o custo cobrado pelo mercado para emprestar dinheiro ao governo.
Esse é o mecanismo apontado por analistas para explicar por que a taxa básica de juros segue elevada no Brasil. Em 2023, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, já atribuía o custo do crédito no país ao tamanho do endividamento público. Os efeitos já aparecem no mercado de trabalho: a geração de empregos formais caiu 25% no primeiro semestre de 2026, o pior resultado desde a pandemia.
Trajetória da dívida desde 2014
Segundo o BC, o endividamento ficou relativamente estável até 2014, último ano do primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT). Em 2015, deu um salto de dez pontos percentuais, seguido por alta de outros seis pontos em 2016 — ano em que Dilma sofreu impeachment. A dívida continuou subindo no governo Temer e atingiu seu pico em 2020, sob Jair Bolsonaro, por conta dos gastos extraordinários com a pandemia de Covid-19.
Apesar de mais de R$ 660 bilhões em despesas emergenciais, a dívida terminou a gestão Bolsonaro em queda: saiu de 87,1% do PIB em 2019 para 83,9% em 2022. No terceiro mandato de Lula, porém, voltou a subir seis pontos percentuais em cerca de dois anos e meio, puxada pelo aumento de despesas públicas.
Para conter o crescimento da dívida e permitir uma queda sustentável da Selic, a Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, estima que o governo precisaria registrar superávits primários acima de 2% do PIB. A gestão Lula, no entanto, não conseguiu equilibrar as contas mesmo após elevar impostos e levar a carga tributária a recordes históricos — estratégia criticada pelo mercado financeiro, que defende cortes de despesas em vez de novas receitas.
Dias antes da divulgação dos dados da dívida, o próprio governo havia liberado R$ 5,7 bilhões em novos gastos para os ministérios, citando espaço dentro do arcabouço fiscal — regra criada em 2023 para substituir o teto de gastos, mas que exceções e despesas fora do orçamento têm tornado pouco eficaz na geração de superávits.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) recomenda que países da América Latina reduzam a dívida para entre 46% e 55% do PIB, patamar que aumentaria a confiança de investidores. Já o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, argumenta que o Brasil não precisa seguir esse padrão por ter baixa exposição à dívida em dólar e mercado financeiro doméstico desenvolvido. O cenário de juros elevados, porém, já se reflete na atividade econômica: o IBC-Br, prévia do PIB calculada pelo Banco Central, avançou apenas 0,1% em maio, reforçando a desaceleração.
