Política e eleições são os temas que os brasileiros mais associam à circulação de notícias falsas no país, segundo novo levantamento do Aláfia Lab.
O laboratório independente de pesquisa sobre internet e sociedade ouviu 1.512 pessoas e identificou que 43% apontam o campo político como o principal terreno da desinformação — à frente de saúde, economia e celebridades.
O estudo também mapeia como eleitores de esquerda, direita e centro se comportam diante das fake news — com diferenças expressivas no uso de ferramentas de checagem e na percepção dos impactos da desinformação.
Esquerda verifica mais, direita encontra mais
A pesquisa detectou assimetrias relevantes no comportamento de eleitores de diferentes espectros políticos. Entre os de esquerda, 39% afirmam identificar fake news com facilidade, contra 30% entre os de direita. O uso de agências de fact-checking também é maior à esquerda: 24% recorrem a essas ferramentas, ante 13% entre os eleitores de direita.
A percepção de exposição à desinformação, porém, é maior à direita. Nesse grupo, 55% dizem se deparar com fake news sobre política e eleições. Entre os de esquerda, o índice é de 48%.
A coordenadora de pesquisa do Aláfia Lab, Vivian Peron, avalia que a desinformação se tornou uma “arma política” e tem dado o tom das disputas eleitorais. O ambiente não é acidental: governadores brasileiros já investem em memes e conteúdo gerado por inteligência artificial para disputar votos nas redes — prática que alimenta diretamente o ecossistema de desinformação política que a pesquisa mapeia.
Idade e escolaridade ampliam a percepção
O levantamento também aponta que a percepção sobre fake news políticas cresce com a idade e a escolaridade. Entre brasileiros com 45 anos ou mais, 47% relatam encontrar desinformação sobre o tema. Entre jovens de 18 a 29 anos, o índice cai para 35%.
Entre entrevistados com ensino superior, metade relata encontrar fake news sobre política e eleições. Já entre pessoas com ensino fundamental, o percentual é de 34%.
Diante de informações suspeitas, a postura predominante é a inação: 47% dos brasileiros afirmam ignorar o conteúdo. Apenas 32% buscam verificar a veracidade da informação, e somente 10% denunciam o caso às plataformas digitais.
Inteligência artificial: usos distintos por ideologia
O estudo também investigou o uso de ferramentas de inteligência artificial pelos brasileiros. O ChatGPT é o chatbot mais popular: 42% dos entrevistados afirmam já ter utilizado a ferramenta. O Gemini aparece na sequência, com 25% de adoção.
O uso do ChatGPT é mais intenso entre eleitores de direita — 53% desse grupo afirmam utilizar a ferramenta, contra 39% entre os de esquerda. A frequência de uso, porém, se inverte: 39% dos eleitores de esquerda utilizam alguma ferramenta de IA todos os dias, enquanto entre os de direita o índice é de 26%.
As finalidades divergem conforme o posicionamento político. Eleitores de direita recorrem mais à IA para criar imagens, vídeos e aprender. Já os de esquerda utilizam as ferramentas com mais frequência para checar notícias falsas — padrão que reforça os dados sobre maior uso de fact-checking por esse grupo.
A pesquisadora Vivian Peron ressalta que levantamentos de autodeclaração como esse produzem hipóteses a serem aprofundadas por estudos futuros. A margem de erro do levantamento é de 2,5 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.