Tecnologia

Golpistas usam Valores a Receber e Minha Casa Minha Vida como isca no Facebook

Estudo da UFRJ revela deepfakes de políticos e rede de páginas na China por trás das fraudes com benefícios sociais
Logo do Facebook sobre bandeira da China, simbolizando o golpe do Valores a Receber investigado pela UFRJ

Um estudo do NetLab/UFRJ identificou 860 anúncios fraudulentos nas plataformas da Meta entre janeiro e março de 2026, publicados por 152 páginas diferentes.

As peças usavam como isca programas públicos como Valores a Receber, Brasil Sorridente e Minha Casa Minha Vida, prometendo benefícios falsos e cobranças indevidas.

Como as fraudes eram aplicadas

O Valores a Receber, serviço do Banco Central, foi o mais explorado pelos golpistas, citado em 345 dos 860 anúncios analisados. Em seguida vêm o Brasil Sorridente, com 230 peças, e o Minha Casa Minha Vida, com 67. Segundo o levantamento, 26,3% dos anunciantes usaram mais de uma política pública na mesma campanha.

Para a coordenadora-geral de pesquisa do NetLab, Débora Salles, o número identificado representa apenas uma fração de uma estrutura maior. “Um único anúncio pode ser visto por milhares ou até milhões de pessoas. Não sabemos quantas pessoas viram esses conteúdos, porque a Meta também não oferece esse tipo de informação”, afirma a pesquisadora.

Do total analisado, 185 anúncios (21,5%) simulavam canais oficiais do governo, seja direcionando o usuário a sites falsos, seja usando nomes e elementos visuais associados a órgãos públicos. Páginas falsas chegaram a copiar a identidade visual do g1 para parecer legítimas.

Deepfakes e vídeos manipulados por IA

Quase metade das peças, 394 de 860, apresentava vídeos gerados ou manipulados por inteligência artificial, muitas vezes com imagens falsas de políticos e jornalistas para dar credibilidade ao golpe. Uma deepfake do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) apareceu em pelo menos 16 anúncios da amostra — o mesmo vídeo já circulava desde 2025 em golpes ligados ao Pix.

A peça ilustra um risco que vai além das fraudes financeiras: com a eleição de 2026 se aproximando, o uso de imagens falsas de políticos em plataformas digitais já preocupa pesquisadores e legisladores. O estudo ainda identificou 146 anúncios (17%) que usaram o recurso de “criativo dinâmico” da própria Meta, combinando imagens, títulos e textos por IA para gerar diferentes versões de uma mesma peça — o que dificulta a fiscalização.

Rede internacional acende alerta para eleições de 2026

O NetLab identificou uma rede de 18 páginas administradas na China, responsável por 67 anúncios enganosos que misturavam referências ao Brasil Sorridente, Bolsa Família e Valores a Receber — algumas publicavam o mesmo conteúdo em inglês e espanhol. Embora as peças analisadas não fossem de propaganda eleitoral, Débora Salles avalia que a atuação de páginas administradas no exterior expõe uma vulnerabilidade que pode ser explorada na disputa de 2026, já que a legislação proíbe o financiamento de campanhas fora do Brasil.

Os anúncios fraudulentos ficaram ativos, em média, 4,4 dias, indício de que os golpistas trocam as campanhas com frequência para dificultar a detecção. Ainda assim, 14 peças permaneceram no ar por mais de um mês, e uma delas resistiu 73 dias, o que o NetLab aponta como falha da Meta em interromper campanhas fraudulentas. Procurada, a Meta não respondeu até a publicação do estudo.

O problema não se limita à publicidade digital: em 2025, o Brasil registrou 2,2 milhões de golpes de estelionato, média de quatro por minuto, com alta de 429,8% desde 2018, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O fenômeno identificado pelo NetLab se insere nesse cenário mais amplo de disparada de golpes no país.

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