O IPS Brasil 2026, divulgado nesta quarta-feira (20) pelo Imazon e parceiros, avaliou a qualidade de vida nos 5.570 municípios do país com base em 57 indicadores sociais e ambientais. A média nacional chegou a 63,40 pontos — avanço de apenas 0,35 em relação a 2025.
O contraste entre regiões permanece brutal: Gavião Peixoto (SP) lidera pelo terceiro ano seguido com 73,10 pontos. Uiramutã (RR), no extremo oposto, marcou 42,44 — diferença superior a 30 pontos entre as duas pontas do ranking nacional.
Norte e Nordeste na cauda do ranking
O levantamento expõe duas realidades antagônicas dentro do mesmo país. Entre as 20 cidades mais bem avaliadas, 18 ficam no Sudeste e no Sul. Entre as 20 piores, 19 estão no Norte e no Nordeste — e só o Pará concentra 12 delas.
No recorte por estados, o Distrito Federal lidera com 70,73 pontos, único ente da federação acima da marca de 70. A sequência inclui São Paulo (67,96), Santa Catarina (65,58), Paraná (65,21) e Minas Gerais (64,66). Na outra extremidade, Pará registra 55,80, Maranhão 57,59 e Acre 58,03. A diferença entre primeiro e último supera 15 pontos. Entre as capitais, Curitiba lidera com 71,29, seguida por Brasília, São Paulo, Campo Grande e Belo Horizonte.
Os estados da Amazônia Legal concentram os piores resultados em Qualidade do Meio Ambiente — reflexo do desmatamento acumulado, dos focos de calor e das emissões de gases de efeito estufa. O Imazon, mesmo instituto responsável pelo IPS, já havia registrado alta de 17% no desmatamento em março, evidenciando como a degradação ambiental se traduz diretamente em piores condições de vida.
O que o IPS mede — e o que ele não é
O índice não usa PIB como critério principal. São 57 indicadores divididos em três dimensões: Necessidades Humanas Básicas (média de 74,58 pontos), Fundamentos do Bem-estar (68,81) e Oportunidades (46,82). Dentro da primeira dimensão, o componente Moradia atingiu a maior nota do país: 87,95. Na segunda, o Acesso à Informação e Comunicação foi o que mais cresceu entre 2025 e 2026, impulsionado pela ampliação do acesso a tecnologias. O IPS é desenvolvido pelo Imazon em parceria com a Fundação Avina, a Amazônia 2030 e o Social Progress Imperative.
Oportunidades: o calcanhar de aquiles do Brasil
A dimensão Oportunidades registrou a pior média do país: 46,82 pontos. Reúne indicadores de Direitos Individuais (39,14), Acesso à Educação Superior (45,97) e Inclusão Social (47,22) — todos abaixo da metade da escala, repetindo o padrão das edições anteriores.
A Inclusão Social vem caindo desde 2024. O relatório aponta como causas o aumento de famílias em situação de rua, a violência contra minorias e a baixa representatividade política. Esse retrato encontra eco direto em outro índice: o Índice de Justiça Econômica Racial apontou que mulheres negras ganham metade do salário de homens brancos, presas em uma estrutura que o IPS 2026 confirma estar em deterioração.
O fosso na dimensão Oportunidades também reproduz o mapa do desemprego no país. Norte e Nordeste dominam simultaneamente as piores posições do ranking de qualidade de vida e os maiores índices de desocupação. O desemprego avançou em 15 estados no primeiro trimestre de 2026, reforçando que a crise de oportunidades tem endereço certo no Brasil.
Em 2026, 706 cidades alcançaram o grupo mais bem avaliado, enquanto apenas 23 municípios figuraram na faixa mais crítica — sinal de que a base do ranking está, lentamente, se esvaziando.
