Quase metade dos municípios brasileiros — 2.511 cidades, ou 45% do total — terminou 2025 com menos água em rios, lagos e áreas alagadas do que o esperado. Os dados são do MapBiomas Água, divulgados nesta terça-feira (16).
O levantamento, que usa satélites e inteligência artificial para monitorar superfícies de água no Brasil desde 1985, aponta uma tendência de quatro décadas: o país acumulou uma perda de água maior que o estado de Sergipe no período.
As maiores perdas em 2025 se concentraram no Pantanal. A Região Hidrográfica do Paraguai — que abrange Mato Grosso e Mato Grosso do Sul — perdeu 53,8% de sua superfície de água, o equivalente a 877 mil hectares em relação à média histórica.
Água natural recua enquanto represas avançam
O MapBiomas Água distingue dois tipos de superfície de água no Brasil: a natural — rios, lagos e áreas úmidas — e a artificial, formada por reservatórios e represas. Desde 1985, as duas categorias seguiram caminhos opostos: os corpos hídricos artificiais cresceram 69%, ganhando 1,7 milhão de hectares. Os naturais encolheram 19%, perdendo 3,2 milhões de hectares.
Hoje, 76,7% da superfície de água mapeada no Brasil é natural e 23,3% é artificial. No Cerrado, porém, essa proporção se inverteu: 55,1% da água mapeada em 2025 vem de reservatórios de hidrelétricas, e apenas 34,4% é natural. Na Mata Atlântica, 61,5% da água é artificial — a maior área absoluta de corpos hídricos construídos do país, com 1,3 milhão de hectares. A Caatinga tem a maior fatia proporcional de água artificial: 78% do total.
O Pantanal segue no extremo oposto: mais de 99% de sua superfície de água é natural, tornando o bioma inteiramente dependente do ciclo de chuvas e do regime dos rios — sem a reserva que represas poderiam oferecer.
Por que o Brasil está secando
Especialistas apontam uma combinação de fatores para explicar a perda acumulada de 2,58 milhões de hectares de superfície de água ao longo das últimas quatro décadas.
O aquecimento global aumenta a evaporação de rios, lagos, solo e vegetação — reduzindo a água disponível na superfície mesmo quando o volume de chuvas não muda. O El Niño, fenômeno que aquece as águas do Pacífico e altera padrões globais de precipitação, tende a reduzir as chuvas no Norte, no Nordeste e em parte do Centro-Oeste. O fenômeno está confirmado para 2026.
O desmatamento entra nessa equação de duas formas: reduz a umidade liberada para a atmosfera — diminuindo a formação de chuvas, especialmente na Amazônia — e afeta diretamente o curso de rios e igarapés por meio de queimadas e movimentação de solo.
Em 2025, o Brasil somou 18,2 milhões de hectares de superfície de água, número 5,3% maior do que em 2024, mas ainda abaixo da média histórica de 18,5 milhões. Para o coordenador técnico do MapBiomas Água, Juliano Schirmbeck, um único ano positivo não reverte a tendência: “Mesmo com sinais pontuais de recuperação, a situação ainda é preocupante no longo prazo.”
Pantanal no limite histórico e Amazônia em recuperação parcial
O Pantanal foi o bioma com o pior desempenho de 2025: sua superfície de água ficou 56% abaixo da média histórica, e todos os 12 meses do ano ficaram aquém do esperado. O bioma fechou 2025 com 679 mil hectares — distante da média de 1,56 milhão de hectares.
O número representa uma melhora de 34% em relação a 2024, quando o Pantanal registrou sua pior marca histórica, com apenas 506 mil hectares. A pesquisadora Mariana Dias, da equipe do Pantanal no MapBiomas, alerta que o problema vai além da quantidade: desde 2019, a região enfrenta secas prolongadas em substituição às grandes enchentes que marcaram os anos 1980 — e é justamente essa alternância que sustenta a biodiversidade do bioma.
O desmatamento — apontado pelo MapBiomas como um dos fatores por trás do encolhimento das superfícies de água — caiu abaixo de 1 milhão de hectares em 2025 pela primeira vez desde 2019, com o Pantanal registrando a maior queda proporcional entre os biomas.
Na direção oposta, a Amazônia teve o melhor resultado entre os biomas em 2025. Após dois anos seguidos de seca severa, a região terminou o ano com superfície de água 2,6% acima da média histórica. O Pará teve o maior ganho do país, com 142 mil hectares acima do esperado.
A Amazônia concentra 61,4% de toda a superfície de água do Brasil — 10 milhões de hectares, quase toda formada por corpos hídricos naturais. Mesmo assim, 20 sub-bacias amazônicas, ou 37% do total, seguem abaixo da média, pressionando comunidades ribeirinhas que dependem dos rios para transporte, pesca e abastecimento. Um estudo recente projeta que o sul da Amazônia pode perder até 14% das chuvas até 2050 pela combinação de desmatamento e aquecimento global — os mesmos fatores identificados pelo MapBiomas como causas estruturais da crise hídrica.
