Economia

Elevador social está quebrado: mulheres negras ganham metade de homens brancos

Índice inédito aponta que a pirâmide econômica do Brasil não mudou em sete anos de análise
Contraste retratando a desigualdade salarial de mulheres negras no mercado de trabalho brasileiro

Mulheres negras ganharam, em média, metade da renda dos homens brancos entre 2016 e 2023 no Brasil. O dado integra o Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), divulgado nesta quinta-feira (14) pela Fundação Grupo Volkswagen em parceria com o Fundo Agbara.

O levantamento cruzou dados do IBGE e do Ipea ao longo de sete anos e concluiu que a estrutura de desigualdade econômica do país permaneceu praticamente inalterada, formando o que os pesquisadores chamam de “pirâmide econômica rígida”.

Na base dessa pirâmide estão as mulheres negras, com os piores resultados em renda, emprego, educação e moradia em todo o período analisado.

Uma pirâmide que não se move

O IJER varia de 0 a 1, sendo 1 o maior nível de justiça econômica. O índice geral avançou de 0,53 em 2016 para 0,59 em 2023 — mas o crescimento ocorreu de forma paralela entre os grupos, sem comprimir as distâncias históricas. Na prática, as condições médias de vida melhoraram, mas as posições na hierarquia social permaneceram as mesmas.

Homens brancos registraram os maiores índices da série, entre 0,67 e 0,69 — cerca de 18% acima da média nacional. O índice das mulheres negras ficou, em média, 11% abaixo do resultado nacional em todo o período. As mulheres brancas apresentaram índices consistentemente superiores aos dos homens negros, o que indica que raça e gênero produzem posições específicas na distribuição de oportunidades.

Em termos de renda, as mulheres brasileiras recebem, em média, 78% do que ganham os homens. Entre mulheres negras, esse percentual cai para 59%. No geral, pessoas brancas têm rendimentos 87% maiores, em média, do que pessoas negras no país. O paradoxo fica evidente ao cruzar esse cenário com o recorde de renda registrado pelo IBGE: mesmo com a média nacional subindo a R$ 3.367 em 2025, o crescimento ocorreu de forma paralela entre os grupos, sem comprimir as distâncias históricas.

Trabalho informal e sem proteção

No mercado de trabalho, as mulheres negras concentram os piores indicadores. Em 2023, apenas 33,3% tinham carteira assinada — o menor percentual entre todos os grupos analisados. Elas também lideram as taxas de desemprego, informalidade e subocupação, e continuam sendo maioria no trabalho doméstico, especialmente em ocupações sem vínculo formal.

Esse dado ecoa números do setor privado: relatório do Ministério do Trabalho divulgado em abril mostrou que mulheres negras têm a menor remuneração média entre todos os grupos — R$ 3.026, contra R$ 6.560 dos homens não negros —, confirmando a base da pirâmide salarial descrita pelo IJER.

Segundo Priscila Soares, coordenadora de pesquisa do Fundo Agbara, a disparidade salarial está ligada tanto ao nível de escolaridade quanto ao tipo de ocupação acessado por diferentes grupos. Para os pesquisadores, essa concentração não é resultado de escolhas individuais, mas de desigualdades estruturais no mercado de trabalho.

Nove gerações para sair da pobreza

Para Marcos Maestri, supervisor de Advocacy da Fundação Grupo Volkswagen, “a mensagem do estudo é: o elevador social do Brasil está quebrado”. Ele cita dados que indicam que uma pessoa pode levar até nove gerações para sair da pobreza e alcançar a classe média no país.

Segundo o pesquisador, muitas mulheres negras precisam buscar renda muito cedo, perdendo uma janela de capacitação acessível a outros grupos. Mesmo quando chegam ao ensino superior, muitas conciliam estudos com empregos de baixa remuneração para ajudar a família — o que compromete a profissionalização e a mobilidade social. O problema, destaca, não está apenas no acesso ao trabalho, mas na qualidade das oportunidades disponíveis.

As condições de moradia reforçam o diagnóstico: em 2023, 31,6% das mulheres negras dependiam de fossas não ligadas à rede de esgoto, contra 20,7% das mulheres brancas. O estudo também aponta menor acesso a bens domésticos como máquinas de lavar, o que amplia a sobrecarga de trabalho dentro de casa.

Apesar dos avanços recentes em políticas afirmativas e programas de transferência de renda, Priscila Soares afirma que ainda faltam estratégias voltadas especificamente para mulheres negras. “Hoje vemos mulheres negras em posições antes não vistas, mas isso ainda não é suficiente. Não dá para dizer que o problema foi resolvido”, afirmou. O estudo recomenda ações focadas em raça, gênero e território: priorizar mulheres negras em políticas públicas, garantir permanência no ensino superior com apoio financeiro, valorizar o trabalho de cuidado como atividade econômica e ampliar a oferta de empregos formais para esse grupo.

escrito com o apoio da inteligência artificial
este texto foi gerado por IA sob curadoria da equipe do Tropiquim.
todos os fatos foram verificados com rigor.
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