O Brasil registrou 29.870 homicídios por arma de fogo em 2024 — 70,1% dos 42.590 assassinatos contabilizados pelo Ministério da Saúde no período. Os dados constam do Atlas da Violência 2026, publicado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública nesta terça-feira (26).
O índice é o menor desde 2014 e representa queda de 8,8% em relação a 2023, mas a redução foi geograficamente desigual: o Nordeste concentra oito dos dez estados com maior participação de armas de fogo nos homicídios registrados.
Nordeste lidera e DF registra a menor proporção do país
Entre os estados com maior índice de mortes por projétil, oito são nordestinos: Ceará (85,6%), Paraíba (83,9%), Bahia (81,1%), Pernambuco (79,1%), Rio Grande do Norte (78,6%), Alagoas (76,1%), Sergipe (75,5%) e Maranhão (73,5%). Completam o topo Amapá (83,7%) e Rio Grande do Sul (71,8%), ambos acima da média nacional de 70,1%.
No extremo oposto, Distrito Federal (40,6%), Roraima (43,7%) e Tocantins (49,8%) registraram as menores proporções. Na análise da última década, todos os estados do Sudeste reduziram o indicador, enquanto cinco dos oito estados do Norte apresentaram tendência de alta. O maior crescimento acumulado foi em Roraima (+41,7%) e no Amapá (+40,9%); a maior queda, no DF (-45,9%).
Três vetores explicam a desigualdade entre regiões
Daniel Cerqueira, técnico de pesquisa do Ipea e coordenador do Atlas da Violência, atribui a disparidade a três fatores: velocidade da transição demográfica, qualidade das políticas estaduais de segurança e o modelo de governança das organizações criminosas.
Para Cerqueira, estados do Sul e do Sudeste reduziram mais rapidamente a proporção de jovens na população, diminuindo a base de recrutamento para o crime. Norte e Nordeste ainda não completaram esse processo. No campo das políticas públicas, ele cita o Pacto pela Vida, de Pernambuco, como modelo positivo — o programa, lançado em 2007, teria contribuído para proteger mais de 17 mil vidas, segundo a Secretaria da Defesa Social do estado.
Quanto à governança criminal, Cerqueira distingue facções mais estruturadas, como o PCC — descrito como “quase uma SA”, que evita confrontos para não atrair intervenção policial —, de grupos menores do Nordeste formados por jovens que disputam o varejo de drogas com violência intensa e armas cada vez mais potentes. O Ipea e o FBSP já haviam documentado como PCC e Comando Vermelho migraram das capitais para cidades do interior, redesenhando a geografia da violência no Brasil.
Crime organizado acessa armamento mais letal
O Atlas da Violência também revela mudança no perfil do armamento em circulação ilegal. Pesquisa de Langeani e Pollachi (2025) identificou queda na proporção de revólveres apreendidos (de 38% para 35%) e aumento expressivo de pistolas semiautomáticas (de 17% para 28%) entre 2019 e 2023. Armas de estilo militar avançaram de 1,7% para 2,4% no país e de 3% para 4,3% no Sudeste.
A hipótese dos autores é que a flexibilização no acesso a armamentos de maior calibre entre 2019 e 2022, no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, ampliou o mercado legal e facilitou o desvio para o circuito ilegal. Rifles costumam chegar via tráfico internacional, com origem nos Estados Unidos e em fabricação doméstica irregular; metralhadoras tendem a ser desviadas de arsenais militares ou de forças de segurança. “Evidências indicam que uma parcela significativa das armas utilizadas por organizações criminosas têm origem em aquisições legais realizadas por civis, posteriormente desviadas para atividades ilícitas”, detalha o relatório.
Os números oficiais, porém, podem subestimar a dimensão real do fenômeno. O próprio Atlas estima que, incluindo os homicídios ocultos, o total real chegaria a 49.673 mortes em 2024 — e a queda ante 2023 encolheria de 7,4% para apenas 0,4%.
A escala do problema ultrapassa os índices de criminalidade. Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que 68 milhões de brasileiros reconhecem a presença de facções no próprio bairro, evidenciando a extensão da governança criminal que o Atlas da Violência tenta mapear.
