O Brasil pode ter tido 49.673 homicídios em 2024 — 7.083 a mais do que os registros oficiais indicam. A estimativa consta do Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26) pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A diferença está nos homicídios ocultos: mortes violentas em que os sistemas públicos não conseguiram determinar se o óbito foi acidente, suicídio ou assassinato. Com esses casos incluídos, a taxa nacional sobe de 20,1 para 23,4 mortes por 100 mil habitantes.
O levantamento também altera o mapa da violência no Brasil: o ranking dos estados mais e menos perigosos muda de forma expressiva quando as mortes sem causa definida entram no cálculo.
Quem sobe e quem cai no ranking estadual
Nos registros oficiais, São Paulo era o estado mais seguro do país em 2024, com taxa de 6,6 homicídios por 100 mil. Quando o Atlas incorpora os homicídios ocultos, essa taxa quase dobra — chega a 12,8 — e São Paulo cai para o terceiro lugar entre os menos violentos.
Santa Catarina passa a liderar o ranking dos estados mais seguros, com taxa estimada de 8,8 homicídios por 100 mil. O Distrito Federal fica em segundo, com 10,9.
No outro extremo, o Amapá mantém a liderança: taxa oficial de 45,7, estimada em 47,1. A maior virada é do Ceará, que sai da quinta posição com 34,3 por 100 mil e vai para a segunda, com taxa estimada de 43,7.
Ao todo, 16 unidades da federação registraram taxa estimada acima da média nacional de 23,4 homicídios por 100 mil habitantes.
Como o Ipea calcula os homicídios ocultos
O Atlas usa dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. Parte das mortes violentas entra no sistema como Morte Violenta por Causa Indeterminada (MVCI) — categoria usada quando não é possível definir se o óbito foi acidente, suicídio ou crime.
Para estimar quantas dessas mortes são homicídios, os pesquisadores do Ipea aplicam um modelo de aprendizado de máquina. O algoritmo considera padrões históricos e variáveis como idade, sexo, local e circunstâncias de cada morte.
Em 2024, os homicídios ocultos quase dobraram em relação ao ano anterior: passaram de 3.755 para 7.083, alta de 88,6%. A taxa por 100 mil habitantes subiu de 1,8 para 3,3 no mesmo período.
Com isso, os homicídios ocultos passaram a representar 14,3% do total estimado — proporção que era de 7,6% em 2023. No acumulado de 2014 a 2024, o Brasil somou cerca de 55,2 mil homicídios ocultos dentro de um total estimado de 638,8 mil mortes.
Para o Ipea, a diferença entre as taxas registrada e estimada chegou a 3,3 pontos em 2024, acima das médias históricas de períodos anteriores.
O resultado aponta piora recente na capacidade institucional de classificar mortes violentas, expondo falhas de integração entre os sistemas de saúde e de segurança pública.
O avanço das facções pelo interior do país ajuda a explicar por que estados como o Ceará escalaram tão rapidamente no ranking — fenômeno documentado em Facções criminosas avançam pelo interior e redesenham o mapa da violência no Brasil.
A piora na identificação das causas de mortes violentas contrasta com o pacote federal de R$ 1,06 bilhão para segurança pública, que inclui eixo dedicado à elucidação de homicídios — debate analisado em Especialista vê risco de politização em pacote de Lula contra o crime organizado.
