A Casa Branca anunciou neste domingo (17) que a China concordou em comprar produtos agrícolas americanos a uma taxa anualizada de US$ 17 bilhões em 2026 — e ao mesmo nível em 2027 e 2028.
O pacote inclui a retomada do acesso de carne bovina dos EUA ao mercado chinês e a reabertura das importações de aves de estados considerados livres de gripe aviária, além de reforçar compromissos de compra de soja já firmados anteriormente.
O anúncio ocorre dois dias após o presidente Donald Trump retornar de uma cúpula com Xi Jinping em Pequim, onde buscou reverter os efeitos da guerra comercial sobre produtores rurais americanos.
Os números deixam clara a dimensão do colapso que antecedeu o acordo. As importações chinesas de produtos agrícolas americanos atingiram o pico em 2022, com US$ 38 bilhões, e despencaram para US$ 8 bilhões em 2025. No segmento de carne bovina, o valor caiu de US$ 2,14 bilhões para menos de US$ 500 milhões no mesmo período. As exportações de aves encolheram de mais de US$ 1 bilhão para US$ 286 milhões.
Com o novo acordo, centenas de frigoríficos americanos — incluindo os da Tyson e da Cargill — poderão voltar a exportar para a China, que havia deixado expirar as licenças dessas plantas ao longo de 2025. Horas após o encerramento da cúpula em Pequim, a China renovou mais de 400 licenças de frigoríficos americanos, desbloqueando o acesso que o novo compromisso busca agora expandir.
No caso da soja, a situação é igualmente delicada. A China, que chegou a comprar até 30 milhões de toneladas métricas por ano, paralisou completamente as importações em 2025 após Trump elevar as tarifas. Dados do USDA mostram que os EUA já exportaram 10,9 milhões de toneladas para a China até 7 de maio — ritmo que coloca Pequim no caminho de cumprir o compromisso anterior, encerrado em 31 de agosto, mas ainda muito aquém dos volumes históricos.
Conselhos bilaterais e reduções tarifárias
Além dos compromissos de compra, Trump e Xi concordaram em criar um Conselho de Comércio e um Conselho de Investimentos. A arquitetura desses mecanismos já havia sido esboçada antes da cúpula, quando os dois países identificaram cerca de US$ 30 bilhões em produtos elegíveis para reduções tarifárias recíprocas. O porta-voz do Ministério do Comércio da China confirmou que as partes concordaram, em princípio, em reduzir tarifas sobre produtos de interesse mútuo em escala equivalente — sem especificar quais seriam contemplados.
Pequim em silêncio — e o papel do Brasil
Até o momento da publicação, Pequim não havia confirmado os termos anunciados pela Casa Branca. O Ministério do Comércio chinês se limitou a declarar que os dois lados “resolveriam ou fariam progressos substanciais” em barreiras não tarifárias e questões de acesso ao mercado agrícola — linguagem consideravelmente mais cautelosa do que a americana.
A cautela tem raízes estratégicas. Nos últimos anos, a China diversificou deliberadamente suas fontes de abastecimento, recorrendo crescentemente ao Brasil, à Argentina e a outros países em detrimento dos EUA — reconhecendo a ligação entre segurança alimentar e segurança nacional. Essa virada beneficiou diretamente exportadores brasileiros, que ganharam fatia relevante no mercado de soja e carne bovina chinês justamente durante o auge da guerra comercial.
Durante a própria cúpula em Pequim, a China chegou a anunciar e reverter a renovação de licenças dos frigoríficos americanos no mesmo dia — jogada que analistas interpretaram como pressão deliberada nas negociações bilaterais. O episódio ilustra o quanto a relação permanece instável, apesar dos anúncios de reaproximação.
Para os agricultores americanos, o acordo chega num momento de pressão adicional: a guerra entre EUA e Israel contra o Irã restringiu a navegação pelo Estreito de Ormuz, limitou o fornecimento global de fertilizantes e fez os preços dispararem. Scott Metzger, presidente da Associação Americana de Soja, disse que o setor quer “maior certeza e consistência no mercado” para que os produtores tenham confiança nas decisões do próximo plantio.
