A China anunciou e depois reverteu, no mesmo dia, a renovação das licenças de exportação de carne bovina para mais de 400 frigoríficos americanos.
O status no site da alfândega chinesa passou de “efetivo” para “expirado” horas depois de a Reuters informar a aprovação — justo durante a cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, nesta quinta-feira (14).
As permissões, concedidas entre março de 2020 e abril de 2021, haviam expirado sem renovação — excluindo cerca de 65% das instalações americanas antes registradas do mercado chinês.
Licença como carta na mesa de negociação
A Administração Geral de Alfândega da China não estava disponível e não respondeu às perguntas enviadas pela Reuters sobre a reversão. Diretores de empresas chinesas do setor se recusaram a comentar, citando a sensibilidade do assunto.
Para Xu Hongzhi, analista sênior da Beijing Orient Agribusiness Consultants, a jogada é deliberada. “Esse assunto é uma carta que a China está jogando nas negociações comerciais bilaterais — muito eficaz para enviar sinais, enquanto o risco real permanece completamente gerenciável”, afirmou, admitindo não ter certeza sobre o que desencadeou a mudança específica desta quinta.
As exportações americanas de carne bovina para a China caíram de forma constante nos últimos anos, chegando a cerca de US$ 500 milhões em 2025 — menos de um terço do pico de US$ 1,7 bilhão registrado em 2022. A queda reflete o impacto acumulado da guerra comercial sobre o agronegócio americano.
Na reunião bilateral desta quinta, Xi Jinping pediu que os dois lados ampliem a cooperação em comércio e agricultura, segundo a emissora estatal CCTV. A declaração aconteceu enquanto as licenças — que seriam um sinal concreto dessa cooperação — iam e vinham no sistema da alfândega.
Na véspera da cúpula, o governo americano havia assinado decretos para ampliar importações de carne bovina nos EUA — sinal da pressão interna sobre o setor, com o rebanho bovino no menor nível em 75 anos e os preços ao consumidor em alta.
Cargill, Tyson e o CEO investigado
O presidente-executivo da Cargill, Brian Sikes, integra a comitiva de empresários que acompanha Trump em Pequim. As plantas da Cargill e da Tyson Foods foram incluídas quando as renovações apareceram pela primeira vez no site da alfândega — e voltaram a perder o status quando o sistema reverteu.
A presença de Sikes na viagem tem contornos delicados: o CEO é alvo de uma investigação do próprio governo americano por suposto conluio de preços no mercado interno, ao lado da Tyson Foods — as mesmas empresas cujas plantas estavam entre as beneficiadas pela renovação das licenças chinesas.
A Casa Branca havia sinalizado nas últimas semanas que a questão das licenças seria levantada na cúpula, e a renovação seria uma vitória clara para os produtores americanos. O vai e vem desta quinta-feira indica que Pequim prefere manter o acesso ao mercado como moeda de barganha — concedendo e retirando conforme o ritmo das negociações, sem custo real imediato para a economia chinesa.
