Estados Unidos e China estão a caminho de um acordo inédito que pode redesenhar a relação comercial entre as duas maiores economias do mundo. Cada país identificou cerca de US$30 bilhões em produtos para redução tarifária recíproca.
O movimento prepara o terreno para a cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, onde o chamado ‘Conselho de Comércio’ pode ser oficializado como mecanismo de comércio bilateral administrado.
O mecanismo proposto, chamado pelos americanos de Trade Council, foi apresentado em março pelo representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer. A iniciativa representa uma virada estratégica de Washington: em vez de pressionar Pequim a reformar seu modelo econômico estatal e voltado à exportação, os EUA agora apostam em metas numéricas para setores não estratégicos.
A lógica foi comparada por um negociador a um ‘adaptador de tomada’ — uma solução pragmática para conectar dois sistemas econômicos estruturalmente incompatíveis, sem exigir mudanças de base em nenhum dos lados.
Reunião em Incheon prepara terreno para a cúpula
Na quarta-feira, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, e o vice-premier chinês, He Lifeng, se reuniram por três horas em Incheon, na Coreia do Sul, para afinar as propostas que Trump e Xi debaterão em Pequim. Nenhuma declaração oficial foi emitida após o encontro pelas principais autoridades econômicas dos dois países.
Quatro fontes familiarizadas com os objetivos do governo Trump esperavam um acordo inicial de US$30 bilhões por lado para lançar o novo mecanismo. Wendy Cutler, ex-negociadora do Escritório do Representante de Comércio dos EUA e diretora do Asia Society Policy Center, confirmou que os dois países ‘estão se unindo’ em torno de uma cesta entre US$30 bilhões e US$50 bilhões em mercadorias elegíveis para redução de tarifas ou outras barreiras comerciais.
Colapso no comércio bilateral abre espaço para entendimento
O pano de fundo das negociações é de deterioração acentuada: o comércio bilateral de mercadorias entre EUA e China caiu 29%, de US$582 bilhões em 2024 para US$415 bilhões em 2025. No mesmo período, o déficit comercial americano recuou quase 32%, para US$202 bilhões — o menor nível em duas décadas, segundo o Departamento do Censo dos EUA.
Do lado chinês, Pequim mantém tarifa extra de 10% sobre todas as importações americanas e cobra tarifas retaliatórias sobre commodities estratégicas: 10% sobre petróleo bruto, 15% sobre gás natural liquefeito e carvão, e até 55% sobre carne bovina — setores no alvo direto da estratégia americana de ampliar exportações de energia e alimentos para a China.
Os EUA, por sua vez, mantêm tarifas de 7,5% sobre produtos de consumo chineses desde 2019 — televisores de tela plana, dispositivos de memória, alto-falantes inteligentes, fones Bluetooth, roupas de cama e calçados. A tarifa temporária global de 10%, vigente até julho, se soma a essas taxas.
Pequim evitou adotar o rótulo ‘Conselho de Comércio’ e afirmou em março ter ‘concordado em explorar mecanismos de trabalho para expandir a cooperação econômica e comercial’, sem entrar em detalhes sobre os termos.
