Política

Empresa do filme de Bolsonaro recebeu R$ 159 mi de fundos ligados a Vorcaro e ao PCC

Entre Investimentos, liquidada pelo BC, também enviou R$ 87,7 mi a entidade suspeita de operar para o PCC
Figura da investigação da Polícia Federal sobre Entre Investimentos e fundos investigados relacionados ao PCC

A empresa que intermediou repasses para o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, recebeu R$ 159,2 milhões de fundos investigados pela Polícia Federal por fraudes ligadas ao Banco Master, segundo relatórios do Coaf.

A Entre Investimentos e Participações, vinculada ao banqueiro Daniel Vorcaro — preso em Brasília —, captou recursos de ao menos três veículos financeiros investigados. Parte do dinheiro foi depois remetida a entidades suspeitas de movimentar recursos do PCC.

Os dados constam dos relatórios de inteligência financeira elaborados pelo Coaf sobre empresas com vínculos ao Banco Master que tiveram relações com a Entre Investimentos e Participações.

Trilha do dinheiro investigado

A maior parte dos repasses veio da Sefer Investimentos, que transferiu R$ 139,2 milhões à Entre. A Sefer foi alvo direto da segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em janeiro, por seus vínculos com Vorcaro.

O fundo Gold Style, administrado pela Reag e também ligado ao banqueiro, repassou outros R$ 20 milhões. O veículo movimentou quase R$ 1 bilhão de empresas apontadas pela PF como parte do esquema de lavagem de dinheiro do PCC no mercado financeiro.

A Inovanti Bank, que aparece em outras suspeitas relacionadas ao PCC, enviou R$ 35,7 milhões à empresa. No sentido contrário, a Entre transferiu R$ 87,7 milhões à RMD Instituição de Pagamento, suspeita de operar para a mesma facção criminosa.

A Entre Investimentos e Participações apareceu pela primeira vez como peça-chave nas revelações do Intercept que mostraram como Flávio Bolsonaro pressionava Vorcaro por pagamentos — e foi por meio dela que parte dos R$ 61 milhões chegou à produção do Dark Horse.

O Intercept Brasil publicou nesta quarta-feira (13) mensagens e um áudio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobrando o banqueiro pelo pagamento do filme. O acordo total previa R$ 124 milhões; R$ 61 milhões foram pagos pelo dono do Master. A TV Globo confirmou o conteúdo da reportagem com investigadores e fontes com acesso às informações.

O publicitário Thiago Miranda, apontado pelo Intercept como responsável por conectar Flávio Bolsonaro e Vorcaro, confirmou à colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, ter intermediado as negociações. Segundo ele, os repasses foram suspensos com a crise do Master e a ligação de Vorcaro com o filme não seria tornada pública.

O fundo Dublin, ligado à Sefer, também repassou R$ 154,2 milhões à Entre Investimentos — cifra que amplia a dimensão da rede financeira mapeada pelo Coaf ao redor da empresa.

Liquidação e investigações paralelas

A Entrepay Instituição de Pagamento, empresa-mãe da Entre Investimentos e parte do Grupo Entre, foi liquidada pelo Banco Central em março deste ano. A decisão foi motivada pelo comprometimento da situação econômico-financeira da companhia, por irregularidades regulatórias e por prejuízos capazes de expor credores a risco anormal.

Em dezembro de 2025, a CVM analisou suspeitas de irregularidades envolvendo o grupo. No principal processo, a autarquia rejeitou um acordo de R$ 21,3 milhões proposto por Entre Investimentos, Banco Master e Viking Participações por suspeitas de operações fraudulentas com cotas de fundo imobiliário. O caso segue aberto e pode resultar em multas e impedimento de atuação no mercado.

O fundo Gold Style, administrado pela Reag e apontado como um dos repassadores de recursos à Entre Investimentos, já estava no radar da Receita Federal como parte de uma cadeia de R$ 12,2 bilhões movimentada pelo Master em veículos suspeitos de vínculos com o PCC.

Em nota, o Grupo Entre afirmou que “vinha conduzindo, de forma estruturada, um processo de descontinuação das operações” da Entrepay e que o objetivo era encerrar as atividades de forma organizada, cumprindo compromissos e mantendo os serviços funcionando. A empresa declarou ainda que “reitera seu compromisso com a colaboração integral com as autoridades competentes” e acompanha o processo de liquidação pelos canais institucionais.

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