O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pressionou o banqueiro Daniel Vorcaro a financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, e as negociações chegaram a R$ 61 milhões em aportes. As informações foram publicadas nesta quarta-feira (13) pelo Intercept Brasil.
O portal teve acesso a mensagens trocadas entre o senador e o banqueiro, além de um áudio gravado em setembro de 2025 em que Flávio cobrava uma posição sobre pagamentos pendentes. A TV Globo confirmou a existência do material.
Questionado por repórteres à saída do Supremo Tribunal Federal, o senador disse apenas que se tratava de “dinheiro privado” e encerrou a entrevista.
Empresa intermediária e rastro no Banco Master
Parte dos repasses feitos por Vorcaro foi realizada por meio de uma empresa chamada Entre Investimentos e Participações, vinculada ao banqueiro e citada em mensagens entre ele e seu cunhado, Fabiano Zettel, segundo o Intercept.
A colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, informou que registros da Receita Federal entregues à CPI do Crime Organizado do Senado mostram que o Banco Master repassou ao menos R$ 2,3 milhões a essa empresa em 2025 — o mesmo ano dos aportes para a produção cinematográfica.
O publicitário Thiago Miranda, identificado pelo Intercept como o responsável por colocar Flávio e Vorcaro em contato, confirmou ter intermediado as negociações para um aporte de R$ 62 milhões. Segundo ele, os repasses foram suspensos com a crise no Master e a participação de Vorcaro no projeto não seria de conhecimento público.
Pressão crescente e jantar com Jim Caviezel
Em 8 de setembro, dias após o Banco Central rejeitar a compra do Master pelo BRB, Flávio enviou um áudio a Vorcaro reconhecendo que o banqueiro vivia um “momento dificílimo” — mas ainda assim pedia uma definição sobre os valores pendentes, dizendo que ficava “sem graça” de cobrar.
Em 22 de outubro, o senador voltou a contatar Vorcaro afirmando que estavam “no limite”. No mesmo dia, convidou o banqueiro para um jantar com Jim Caviezel, o ator que interpretava Bolsonaro no filme. Vorcaro aceitou e propôs que o encontro ocorresse em sua casa.
Cinco dias antes da revelação do Intercept, Flávio cobrava publicamente uma CPI do Banco Master e apontava ligações entre o banco e o PT — enquanto, em mensagens privadas, pressionava o próprio Vorcaro pelos pagamentos do filme.
Mensagens cifradas e prisão no dia seguinte
Nos dias que antecederam a prisão, os contatos entre o senador e o banqueiro passaram a incluir ligações telefônicas e mensagens de visualização única — formato que impede o registro permanente do conteúdo. Em 16 de novembro, após a troca de duas dessas mensagens, Flávio enviou uma reação; Vorcaro respondeu também com visualização única; Flávio encerrou a troca com: “Amém”.
No dia seguinte, 17 de novembro, a Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro no Aeroporto Internacional de Guarulhos enquanto embarcava. A operação integrou investigações sobre uma rede que envolve fraudes, corrupção de servidores públicos e o uso de uma suposta “milícia privada” para intimidar opositores.
A prisão ocorreu no contexto de uma delação que a PF já avaliava como insuficiente — sem a entrega dos nomes que os investigadores esperavam, entre eles os de quem recebia os recursos do banqueiro.
