O uso do rotativo do cartão de crédito somou R$ 109,65 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 9,7% sobre igual período do ano anterior, quando as concessões chegaram a R$ 99,9 bilhões. Os dados foram divulgados pelo Banco Central nesta segunda-feira (27).
A taxa de juros da modalidade atingiu 428,3% ao ano em março — a mais cara entre todas as linhas do mercado financeiro. Cerca de 40 milhões de brasileiros estavam com dívida no rotativo em janeiro, e a inadimplência na linha chegou a 63,5%.
O Banco Central contabiliza 101 milhões de portadores de cartão de crédito no Brasil — quase metade da população. A concentração do uso no rotativo, linha criada para cobrir faturas não pagas no vencimento, acende alertas sobre a qualidade do crédito consumido pelas famílias.
Em março, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que parte dos consumidores passou a usar o rotativo como complemento de renda, em vez de recurso emergencial. Para ele, o fenômeno exige uma “discussão estrutural”, com o objetivo de “produzir arranjos mais saudáveis para quem está buscando crédito”.
O avanço do rotativo não é caso isolado: em março, 80,4% das famílias brasileiras já estavam endividadas — o maior índice da série histórica —, com o cartão de crédito presente em 84,9% dos lares com dívida.
O Banco Central já havia soado o alarme antes: cerca de 130 milhões de brasileiros — 74% dos que têm conta em banco — encerraram 2024 com dívida ativa, e o saldo do rotativo havia batido recorde histórico de R$ 400 bilhões em 2025.
Governo articula saída em ano eleitoral
Com as eleições de outubro no horizonte, o governo Lula trabalha em um programa de refinanciamento que unificaria dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal em uma única operação. Os descontos sobre os juros variariam entre 30% e 80%, podendo chegar a 90% em casos específicos.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou as duas frentes do programa: o refinanciamento consolidado e a possibilidade de uso do saldo do FGTS para quitar dívidas, com limites para evitar comprometimento excessivo do fundo.
O crédito consignado privado, lançado no ano passado, já liberou mais de R$ 80 bilhões em um ano. A regulamentação do FGTS como garantia nos empréstimos — apresentada pelo governo como diferencial para reduzir juros — ainda não foi implementada.
O programa de refinanciamento é parte de uma estratégia mais ampla que o governo costura desde março, quando Lula incumbiu a Fazenda de atacar o endividamento da população antes das eleições de outubro.
