Seis em cada dez brasileiros afirmam que a renda familiar não cobre as despesas básicas — e quase metade da população já recorreu a trabalhos extras para tentar equilibrar o orçamento.
Os dados são de pesquisa do Datafolha realizada nos dias 8 e 9 de abril com 2.002 pessoas em 117 municípios, divulgada neste domingo (26).
Entre quem ganha até dois salários mínimos, a sensação de renda insuficiente para pagar contas atinge 73% dos entrevistados.
Queda de ganhos e busca por alternativas
O levantamento aponta que 59% dos entrevistados sentem que o que ganham não é suficiente para cobrir o dia a dia, enquanto cerca de 45% buscaram trabalhos adicionais — formais ou informais — nos últimos meses para complementar o salário.
A deterioração recente dos ganhos aparece em outro dado: cerca de 40% dos participantes relataram queda na renda familiar. O impacto é mais intenso entre pessoas de 35 a 44 anos, faixa em que quase metade (49%) afirma ter visto o orçamento encolher.
Famílias de baixa renda são as mais pressionadas. Nesse grupo, a busca por alternativas passa por serviços temporários, vendas informais e atividades por conta própria — e a percepção de insuficiência já ultrapassa os 73%.
A pesquisa também identifica um aparente paradoxo: a procura por renda extra é mais comum entre pessoas com maior escolaridade. Segundo o Datafolha, isso ocorre porque esses grupos têm maior inserção no mercado de trabalho e, portanto, mais acesso a oportunidades — ainda que muitas vezes precárias.
O retrato se conecta a um endividamento estrutural crescente. Uma pesquisa Datafolha de 18 de abril já havia mostrado que 67% dos brasileiros têm dívidas financeiras e 27% recorrem ao crédito rotativo com alguma frequência — contexto que ajuda a explicar por que quase metade da população saiu em busca de dinheiro extra no mesmo período.
Mulheres no centro do aperto financeiro
Os dados do Datafolha revelam uma desigualdade de gênero marcante. As mulheres aparecem com maior frequência entre quem afirma que a renda não cobre despesas básicas e lideram entre os que classificam a própria vida financeira como ruim ou péssima.
Cerca de 44% delas relatam humor financeiro negativo, ante 36% dos homens. No geral, quatro em cada dez brasileiros demonstram algum nível de insatisfação com suas finanças.
Parte da disparidade vem da estrutura salarial: mulheres seguem concentradas nas faixas mais baixas e ganham, em média, cerca de 30% menos em cargos de liderança. A menor participação no mercado de trabalho reduz ainda mais as possibilidades de ampliar os ganhos.
O endividamento feminino também preocupa. Um percentual maior de mulheres está com o CPF negativado, sinalizando dificuldade crescente para manter as contas em dia. Esse dado se insere em um quadro já documentado: em meados de abril, mais da metade dos adultos brasileiros tinha o nome negativado, o que levou o governo a anunciar um pacote emergencial de R$ 78 bilhões.
