O Google concordou em pagar US$ 50 milhões — cerca de R$ 245 milhões — para encerrar uma ação coletiva movida por funcionários negros que acusavam a empresa de discriminação racial sistêmica em contratações, salários e promoções.
O acordo foi fechado nesta quinta-feira (8). A ação havia sido ajuizada em 2022 nos Estados Unidos e ganhou status de processo coletivo ao reunir outros ex-funcionários com relatos semelhantes.
A ação foi iniciada por April Curley, ex-funcionária do Google, que denunciou um “padrão recorrente” de tratamento injusto contra trabalhadores negros dentro da companhia.
Como funcionava a discriminação, segundo o processo
De acordo com a ação, a empresa direcionava funcionários negros para cargos de menor nível e pior remuneração, além de submetê-los a ambientes de trabalho hostis quando tentavam denunciar a situação.
Candidatos negros eram avaliados com base em estereótipos raciais. Recrutadores os consideravam “não suficientemente Googly” — expressão interna da empresa que, segundo os autores do processo, funcionava como um código para discriminação racial disfarçada de critério cultural.
Entrevistadores teriam também intimidado candidatos negros durante processos seletivos, contratando-os para cargos com salários menores, posições inferiores e menor perspectiva de crescimento.
O Google não respondeu a pedidos de comentário da agência AP antes da publicação do acordo.
O caso reforça um histórico de denúncias internas na empresa. Um dos episódios mais citados é o da pesquisadora de inteligência artificial Timnit Gebru, afastada pelo Google em 2020 após um conflito relacionado a um estudo sobre riscos sociais de sistemas de IA. Não é a primeira vez que o Google cede à pressão judicial: em abril, a empresa reformulou o Gemini após ser processada pela morte de um usuário — outro caso em que mudanças internas só vieram depois de uma ação na Justiça.
O acordo não representa admissão de culpa por parte do Google. Além do pagamento de US$ 50 milhões, a empresa se comprometeu com medidas estruturais: análise de equidade salarial, maior transparência nos pagamentos e restrições à obrigatoriedade de arbitragem em disputas trabalhistas — pelo menos até agosto de 2026, segundo o advogado Ben Crump.
O desfecho segue um padrão recente entre as gigantes do Vale do Silício. Dois dias antes do acordo do Google, a Apple concordou em pagar R$ 1,2 bilhão para encerrar uma ação coletiva nos EUA — também sem admitir culpa. O movimento sugere que acordos extrajudiciais tornaram-se a estratégia preferida pelas big techs para gerenciar passivos jurídicos sem exposição pública prolongada.
A combinação do volume financeiro e das medidas estruturais previstas reacende o debate sobre a efetividade das políticas de diversidade e inclusão em grandes empresas de tecnologia — e sobre o papel da Justiça quando os mecanismos internos falham.
