Um resíduo que as estações de tratamento de água precisam pagar para descartar pode virar adubo. A Embrapa e a Sabesp desenvolveram uma tecnologia que transforma o lodo dessas estações em fertilizante de liberação lenta de nutrientes.
Nos testes em casa de vegetação, o produto teve eficiência agronômica até três vezes maior que a do grupo de controle no cultivo de gramíneas. Os resultados foram divulgados pela Embrapa em 27 de outubro.
Como o lodo vira fertilizante
O ponto de partida é o alumínio, elemento presente no lodo que limita seu uso na agricultura. A tecnologia usa um processo químico para reduzir os riscos associados a esse metal e, ao mesmo tempo, incorporar ao material nutrientes como nitrogênio e potássio.
O resultado são grânulos que liberam os nutrientes aos poucos. Nos testes com gramíneas, o ganho apareceu principalmente na produção de biomassa e na absorção de nutrientes pelas plantas. O Tropiquim já detalhou como o processo prende o alumínio do lodo, o que explica por que um resíduo antes inviável para o campo pode agora virar adubo.
Os pesquisadores também observaram que os grânulos conseguiram preservar por quase cinco meses uma bactéria benéfica ao desenvolvimento das plantas, o que amplia o potencial de uso do insumo.
Um passivo de 124 mil toneladas por ano
A escala do problema ajuda a entender o interesse no projeto. A Sabesp gera cerca de 124 mil toneladas de lodo por ano em 208 estações de tratamento no estado de São Paulo. O custo médio de transporte e destinação é de R$ 300 por tonelada — pela média informada, uma conta que passa de R$ 37 milhões por ano.
“A tecnologia desenvolvida transforma esse resíduo em matéria-prima para insumos agrícolas, agregando valor a um material que tradicionalmente representa custos de manejo e de descarte, com potencial para aumentar a eficiência do uso de nutrientes”, afirmou o pesquisador Caue Ribeiro, coordenador do projeto na Embrapa Instrumentação.
O que falta para chegar ao campo
Apesar dos resultados, o fertilizante de lodo ainda está em fase experimental e não foi disponibilizado comercialmente. Até agora, os testes foram feitos apenas em casa de vegetação, em ambiente controlado.
A próxima etapa é buscar parceiros industriais para testar a produção em maior escala. Também estão previstas avaliações em campo e a eventual obtenção de registro do produto no Ministério da Agricultura e Pecuária, condição para que o insumo possa ser vendido.
Quatro anos de pesquisa
O projeto durou quatro anos e recebeu mais de R$ 2,7 milhões em investimentos. Participaram diferentes unidades da Embrapa, com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
Se a produção em escala se confirmar, a tecnologia pode reduzir ao mesmo tempo os custos ambientais e financeiros do descarte do lodo e oferecer uma nova fonte de nutrientes para a agricultura.