Ciência

Trio de bactérias reduz em 60% a podridão da raiz no trigo

Microrganismos isolados de variedades ancestrais protegem a lavoura sem eliminar o fungo do solo, aponta estudo de Embrapa e USP
Embrapa e USP unem forças na pesquisa com bactérias contra podridão no trigo, protegendo lavouras brasileiras.

Um trio de bactérias retiradas do solo de variedades ancestrais de trigo reduziu em cerca de 60% os sintomas da podridão da raiz, doença provocada por um fungo que ataca a base e o sistema radicular da planta e compromete a absorção de nutrientes.

O resultado é de pesquisadores da Embrapa e da USP e foi publicado em maio na revista científica NPJ Biofilms and Microbiomes.

Um escudo que muda a ecologia do solo

O achado contraria a lógica mais comum do manejo de doenças agrícolas, que persegue a eliminação do agente causador. No experimento, o fungo Bipolaris sorokiniana continuou presente no solo em quantidades semelhantes tanto perto das plantas doentes quanto das saudáveis.

“O que talvez seja mais interessante nesse trabalho é que as bactérias protegem a planta sem precisar eliminar o patógeno. O que mudou foi o resultado da interação”, resume Rodrigo Mendes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e coordenador dos projetos, em declaração à Agência Fapesp. Para ele, as plantas inoculadas construíram uma espécie de escudo microbiológico que impediu o fungo de adoecer a cultura.

Mendes compara o microbioma — o conjunto de microrganismos e seus produtos — ao sistema imune humano: saudável, dá conta dos patógenos; fragilizado, abre espaço para infecções oportunistas. A chegada das bactérias benéficas reorganizou essa comunidade ao redor das raízes e manteve o fungo sob controle.

A descoberta se soma a outras soluções biológicas da Embrapa voltadas a reduzir insumos químicos na lavoura, como o biodetergente criado com a UFRJ que prolonga a vida útil de frutas sem agrotóxico.

Pistas vieram de trigos crioulos da Turquia e do Irã

As espécies escolhidas saíram de um levantamento anterior do grupo, que comparou o microbioma do solo sob variedades ancestrais de trigo e sob cultivares comerciais. Duas sementes crioulas, uma turca e outra iraniana, colhidas perto do centro de origem do cereal, forneceram as candidatas.

São elas Streptomyces virginiae, Paenibacillus ottowii e Pseudomonas inefficax. Apesar do nome, a última foi a mais eficaz: aumentou a biomassa das raízes, concentrou genes promotores de crescimento e restaurou funções do microbioma ligadas à defesa vegetal. “A bactéria funcionou não diretamente sobre o patógeno, mas como um engenheiro ecológico”, diz Caroline Sayuri Nishisaka, autora do doutorado que originou o estudo.

Os microrganismos integram o portfólio de ativos da Embrapa e podem ser licenciados por empresas interessadas em transformar o achado em inoculante comercial. A equipe agora investiga quais metabólitos da própria planta sustentam as bactérias benéficas, caminho para novas tecnologias de prevenção de doenças.

O avanço acompanha uma leva recente de pesquisas brasileiras em controle biológico, como o nano-herbicida de Sorocaba que elimina até 95% das ervas daninhas em testes. A podridão da raiz é uma das doenças mais comuns do trigo, cereal cuja safra brasileira somou 7,87 milhões de toneladas em 2025, segundo a Conab.