Ciência

Embrapa e Sabesp transformam lodo de estação de água em fertilizante de liberação lenta

Processo neutraliza o alumínio tóxico do resíduo, e o fertilizante foi de 2 a 3 vezes mais eficiente no azevém. O próximo passo é um piloto industrial
Prédio da Embrapa Agroenergia, símbolo da pesquisa do fertilizante de lodo de ETA feito com a Sabesp

As empresas de saneamento gastam caro para descartar um resíduo que pode virar adubo. A Embrapa e a Sabesp criaram uma rota nanotecnológica que transforma o lodo das estações de tratamento de água (ETAs) em fertilizante de liberação lenta, com nitrogênio e potássio.

O processo hidrotérmico neutraliza o alumínio tóxico do lodo, que é o principal obstáculo ao seu uso na agricultura. Os resultados em laboratório e em casa de vegetação foram positivos. Agora, os pesquisadores buscam empresas para montar um projeto-piloto industrial.

Por que o lodo de ETA é um problema

O lodo de esgoto é rico em matéria orgânica e já é estudado para uso no campo. Já o resíduo das estações de água tem pouca carga orgânica e muito sal de alumínio, que vem dos coagulantes usados na purificação. Segundo Caue Ribeiro, coordenador do projeto na Embrapa Instrumentação (SP), o alumínio livre pode ser tóxico às plantas. Ele prejudica as raízes e a absorção de nutrientes como o fósforo.

Só a Sabesp gera cerca de 124 mil toneladas de lodo desidratado por ano nas 208 ETAs que opera em São Paulo. Nas maiores unidades, a retirada exige até 16 viagens de caminhão por dia. O transporte e a destinação custam em média R$ 300 por tonelada, e a companhia busca alternativas para mandar menos material a aterros sanitários.

Como funciona a conversão

Dentro de uma autoclave, com temperatura e pressão controladas, o lodo passa por conversão hidrotérmica e vira um concentrado zeolítico, mineral formado por silício e alumínio. Segundo a pesquisadora de pós-doutorado Raquel Cardoso Machado, o tratamento reorganiza as partículas e forma cristais de sodalita, um tipo de zeólita. Esse mineral prende o alumínio na própria estrutura e reduz o risco de ele se espalhar no ambiente.

O mineral é misturado a amido plastificado com ureia. O resultado são grânulos resistentes de nitrogênio e potássio (NK), que se degradam aos poucos no solo.

Eficiência até três vezes maior

Os testes em casa de vegetação foram feitos na Embrapa Pecuária Sudeste. No azevém, os grânulos com sodalita tiveram eficiência agronômica 2 a 3 vezes maior que a do controle. No capim-piatã, a tendência foi a mesma, mas com diferença menor.

“A zeólita retém mais o nitrogênio, evita a emissão de gases e mantém os nutrientes disponíveis para que as raízes das plantas os absorvam em maior quantidade”, afirma a pesquisadora Ana Rita Nogueira, que coordenou as análises químicas.

Ureia importada e uso do lodo sem tratamento

Para Alberto Bernardi, da Embrapa Pecuária Sudeste, ganhar eficiência é especialmente relevante porque o Brasil importa cerca de 80% da ureia que consome. Além disso, parte do nitrogênio aplicado na lavoura se perde por volatilização.

Os grânulos também levaram bem a bactéria Bacillus megaterium, que favorece o crescimento das plantas. Ela foi acompanhada por quase cinco meses dentro do material. O fungo Trichoderma asperelloides, por outro lado, não se adaptou à formulação.

Em outra frente, a Embrapa Meio Ambiente testou o lodo sem tratamento em milho e feijão. O pesquisador Wagner Bettiol, orientador do estudo, recomenda doses de até 5% (peso por peso) para a produção de alimentos e de até 15% para recuperar áreas degradadas. Nas doses mais altas, houve acúmulo de metais nos tecidos das plantas, mas não nos grãos.

Próximos passos

A pesquisa durou quatro anos, custou mais de R$ 2,7 milhões e teve apoio da Fapesp. Marco Barros, diretor da Sabesp, diz que as próximas etapas são a validação em campo e o eventual registro do produto no Ministério da Agricultura e Pecuária. A expectativa é levar a solução a outras estações com características parecidas.

Converter resíduos em insumo já é realidade em algumas propriedades: em Linhares (ES), produtores usam biodigestores para transformar dejetos animais em biofertilizante e biogás.