Meio ambiente

Embrapa aponta Centro-Oeste e Matopiba como áreas mais expostas à poluição da água pelo agro

Mapeamento cruza dados de fertilizantes, rebanhos e solo para indicar onde o monitoramento rural da qualidade da água é mais urgente
Mapa do Centro-Oeste e prédio da Embrapa ilustram a poluição da água pelo agro nas regiões produtoras

Municípios de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, além da fronteira agrícola do Matopiba, concentram as áreas em que rios e reservatórios estão mais sujeitos à poluição difusa da agropecuária, segundo mapeamento da Embrapa.

O estudo foi feito por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da Embrapa Solos (RJ) e divulgado em 13 de outubro. Ele classifica os municípios brasileiros pela prioridade de monitoramento da água nas zonas rurais.

O foco é a contaminação por nitrogênio e fósforo que a chuva leva das lavouras para os rios, um problema pouco acompanhado em um país que sempre monitorou a água principalmente nas cidades.

Um poluente sem endereço fixo

A diferença entre os dois tipos de poluição explica por que o campo ficou fora do radar. Esgotos urbanos e efluentes industriais são fontes pontuais: têm origem identificável e são relativamente fáceis de controlar. Já a poluição difusa se espalha pelo território.

“Elas resultam do escoamento superficial das águas da chuva, que transportam resíduos provenientes das áreas rurais, como fertilizantes, defensivos agrícolas, sedimentos e nutrientes, até rios, córregos e reservatórios”, afirma Alexandre Ortega, pesquisador da Embrapa Solos.

Historicamente, o monitoramento da qualidade da água no Brasil se concentrou nas áreas urbanas, por causa do impacto do esgoto na saúde pública. Para os autores, levar esse acompanhamento ao meio rural é necessário para garantir a segurança hídrica e proteger os ecossistemas aquáticos.

Como o mapa foi construído

Coordenada pela pesquisadora Rachel Prado, da Embrapa Meio Ambiente, a equipe usou Sistemas de Informação Geográfica para cruzar grandes bases de dados nacionais já existentes. Entre os indicadores estão a entrega de fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos por cultura e município, a área plantada, o efetivo de rebanhos, a área de cana-de-açúcar com fertirrigação, o balanço hídrico das microbacias e a erodibilidade do solo.

Cada variável recebeu uma nota de 1 (prioridade muito baixa) a 5 (muito alta). Os mapas temáticos foram então integrados em dois mapas síntese: o primeiro aponta os municípios prioritários pela presença de fontes difusas ligadas à agropecuária; o segundo acrescenta a vulnerabilidade às mudanças climáticas.

Paraná e São Paulo também aparecem

Fora do Centro-Oeste e do Matopiba, que reúne partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o estudo encontrou de forma mais localizada municípios do Paraná e de São Paulo com prioridade elevada. Segundo os pesquisadores, essas regiões combinam agropecuária intensa, uso elevado de insumos e condições ambientais que facilitam o transporte de nutrientes e sedimentos para a água. Os eventos climáticos extremos podem agravar esse quadro.

Mais adubo, mais risco

O alerta vem junto com a alta no consumo de fertilizantes. Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos citados no estudo mostram que o volume entregue aos produtores passou de 14,7 milhões de toneladas em 1998 para 40,6 milhões em 2020 e chegou a 45,6 milhões em 2024. As projeções indicam cerca de 65 milhões de toneladas até 2050.

Boa parte desse insumo não é aproveitada pelas plantas. Pesquisas indicam que cerca de metade do nitrogênio aplicado se perde no ambiente, seja carregado pela enxurrada, seja infiltrado até o lençol freático. Em chuvas intensas, o dano é maior em bacias com solo exposto, manejo inadequado e erosão acelerada.

O quadro se soma a outros sinais de pressão sobre a água no Centro-Oeste: o MapBiomas mostrou que Mato Grosso e Mato Grosso do Sul concentram as maiores quedas de superfície hídrica do país.

O que os pesquisadores recomendam

Para reduzir a contaminação, o estudo defende técnicas de conservação do solo, uso e manejo adequados de fertilizantes e manutenção de vegetação nativa nas margens dos rios. Segundo os autores, essas medidas também evitam o desperdício de insumos caros e podem orientar políticas públicas de controle da poluição difusa.