Terraços redimensionados com drones e modelagem digital triplicaram a capacidade de retenção de água e contiveram a erosão do solo em uma microbacia de Toledo, no oeste do Paraná. O resultado é de um estudo da Embrapa Soja em parceria com a Itaipu Binacional.
A pesquisa, divulgada pela Embrapa em 20 de outubro, concluiu que medir os terraços só pela altura e pela largura já não basta para proteger as lavouras das chuvas extremas. A metodologia pode ser replicada em cerca de 2 milhões de hectares do estado.
Uma chuva que expôs as falhas
O alerta veio em outubro de 2017, quando a bacia de Toledo recebeu 160 mm de chuva em cerca de 18 horas. A água transbordou dos terraços e levou cerca de 7.500 m³ de solo, segundo estimativa da Embrapa Soja e da Itaipu.
Depois disso, os pesquisadores redesenharam o sistema em 115 hectares. Modelos digitais de elevação gerados por drones alimentaram o software Terraço 4.1, desenvolvido pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), que serviu para propor as soluções contra a erosão causada pela chuva. O uso de drones no manejo das lavouras vem crescendo no país, impulsionado por iniciativas da própria Embrapa e pela expansão das agtechs.
No fim, 43 terraços ineficientes deram lugar a 29 reprojetados. A altura média passou de 0,26 m para 0,72 m, e a capacidade de retenção de água saltou de 22 mm para 71 mm.
Máquinas maiores, terraços mais espaçados
O redesenho também levou em conta o porte das máquinas agrícolas atuais. Maiores e mais pesadas, elas têm dificuldade para manobrar entre terraços próximos, o que aumenta o tráfego e compacta o solo. Por isso, a distância horizontal média entre as estruturas subiu de 28 m para 51 m, com espaçamento vertical de cerca de 3 m.
“Identificamos que os sistemas de terraceamento atuais apresentavam um desempenho inferior ao esperado, com falhas hidráulicas e rompimentos”, afirma o pesquisador Júlio Franchini, da Embrapa Soja. Segundo ele, a eficácia do novo sistema foi comprovada entre 2019 e 2024. Nesse período, a microbacia enfrentou chuvas acima de 30 mm por dia sem sinais de erosão ou de sulcos.
Um índice para avaliar os terraços
Para tornar o diagnóstico mais preciso, um novo estudo introduziu o conceito de Capacidade Estrutural Relativa (CER), explica o pesquisador Henrique Debiasi, da Embrapa Soja. O índice compara o volume de água que o terraço consegue segurar com a enxurrada gerada pela chuva.
Com ele, as estruturas passam a ser classificadas em três condições: seguras, marginais e com tendência a falhar. Segundo Debiasi, a faixa intermediária identifica sistemas que operam perto do limite de colapso e reagem muito tanto à chuva quanto ao manejo do solo.
“Isso é relevante porque diferencia situações em que o manejo do solo é suficiente daquelas que demandam ações estruturais de redimensionamento ou reconfiguração do sistema de terraceamento”, diz o pesquisador.
Do campo às políticas públicas
Franchini e Debiasi esperam que o método oriente decisões sobre a reforma de terraços e apoie políticas de conservação do solo e da água em larga escala. O problema não fica restrito à lavoura: dias antes, outro mapeamento da Embrapa já havia mostrado que o escoamento da chuva leva sedimentos e nutrientes das plantações até rios e reservatórios.