Pastagens com adubação moderada e número equilibrado de animais acumulam mais carbono no solo do que sistemas com irrigação, muito nitrogênio e gado em excesso. É o que mostram experimentos de longa duração da Embrapa no interior paulista, apoiados pela Fapesp.
Em uma das áreas sob lotação moderada, o estoque no primeiro metro do solo subiu de 102 para 162 toneladas por hectare entre 2011 e 2020. O manejo mais intensivo ficou em 111 toneladas, sem ganho significativo sobre o pasto degradado.
A equipe também desenvolveu uma forma mais barata de medir esse carbono, passo que pode facilitar o acesso de pecuaristas ao mercado de créditos.
Equilíbrio supera intensificação
Os resultados, publicados nas revistas Geoderma e Soil & Tillage Research, vêm de um Projeto Temático coordenado pelo físico Ladislau Martin Neto, da Embrapa Instrumentação. Os pesquisadores compararam pastos degradados, sem adubo e com pastejo contínuo, a sistemas recuperados com diferentes níveis de intervenção.
O melhor desempenho veio da área com 200 quilos de nitrogênio por hectare ao ano e lotação moderada: 162 toneladas de carbono por hectare, ganho médio de cerca de duas toneladas ao ano. O sistema de alta lotação sem irrigação chegou a 139 toneladas.
“O equilíbrio parece ser o mais importante”, disse Martin Neto em entrevista à Agência Fapesp. A explicação é biológica: com pastejo excessivo, o gado remove mais biomassa e o capim perde capacidade de recompor folhas e raízes, que são as responsáveis por levar carbono ao solo.
A análise isotópica, que distingue o carbono herdado da floresta original daquele incorporado pelo capim, confirmou a vantagem: 52 toneladas por hectare nos primeiros 30 centímetros sob lotação moderada, contra 37 no sistema de alta lotação.
Fórmula conhecida do pecuarista
Segundo a pesquisadora Patrícia Perondi Anchão Oliveira, que lidera o experimento, o modelo não exige tecnologia inacessível: combina capins adaptados ao clima tropical com gado de origem indiana, como o nelore. “Esse já é um caso de sucesso na pecuária brasileira”, afirmou.
Há também ganho de fertilidade. Na camada de até 5 centímetros, a capacidade do solo de reter nutrientes como cálcio, magnésio e potássio foi cerca de 250% maior no pasto bem manejado. E usar menos fertilizante nitrogenado significa menor custo para o produtor.
Medição mais barata abre caminho para créditos
Para que o carbono do solo vire crédito, é preciso medi-lo de forma confiável. O método de referência internacional exige abrir trincheiras de até 1 metro e retirar blocos intactos de terra para calcular a densidade, processo caro em grandes áreas.
Um estudo publicado em abril no Microchemical Journal testou a espectroscopia no infravermelho próximo, a NIRS, que estima o estoque usando só terra solta coletada com trado. Em 576 amostras, os resultados não diferiram estatisticamente do método tradicional.
A técnica já é admitida em metodologias do padrão VCS, gerido pela Verra, mas o modelo ainda precisa incorporar solos de outras regiões antes de ser aplicado em todo o país.
Comprovar o carbono de fato retido no solo é um desafio que também aparece em outras técnicas de captura, como o intemperismo aprimorado de rochas, em teste em lavouras do Brasil e da Índia.
Potencial em 50 milhões de hectares
O projeto estima em cerca de 50 milhões de hectares as pastagens degradadas recuperáveis no Brasil. Se toda essa área atingisse a taxa observada, o acúmulo chegaria a 1 bilhão de toneladas de carbono em dez anos, o equivalente a 3,6 bilhões de toneladas de CO₂. Trata-se de uma extrapolação teórica, não de uma previsão.
Recuperar áreas já abertas também reduz a pressão sobre a vegetação nativa. É uma lógica reforçada pelo Seeg, que mostrou queda de 9% nas emissões líquidas do Brasil em 2025, puxada pela redução do desmatamento.