A Embrapa apresentou, em 3 de novembro, a Embrapa Trace, tecnologia digital de rastreabilidade que acompanha soja, café e carne bovina da origem ao mercado. A ferramenta reúne em um único parecer as evidências de conformidade agroambiental e sanitária da produção.
Oferecida como API, a solução mira um gargalo das exportações brasileiras: a cobrança crescente de mercados estrangeiros por informações confiáveis sobre a origem das commodities e pelo cumprimento de critérios ambientais e legais.
Como funciona o passaporte digital
A Embrapa Trace não opera sozinha. Ela se apoia em duas outras soluções da pesquisa pública brasileira. A primeira é o TerraClass, projeto da Embrapa com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que monitora a dinâmica de cobertura e uso da terra na Amazônia e no Cerrado.
A segunda é o ElegiAgro, sistema da própria empresa que automatiza a análise de elegibilidade agroambiental ao cruzar bases cadastrais, fundiárias e geoespaciais.
Segundo Anderson Alves, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, em São Paulo, a ferramenta define critérios de rastreabilidade para cada cadeia produtiva. “A Embrapa Trace padroniza informações autodeclaradas, valida e integra certificações existentes, consolidando evidências de sustentabilidade e rastreabilidade em um parecer único de conformidade, como um passaporte digital do produto”, afirma.
A fragmentação é um problema antigo. Em agosto, um estudo do WRI Brasil apontou que o país tem sistemas sofisticados de rastreabilidade para soja e carne bovina, mas desconectados e com critérios distintos, lacuna que a nova ferramenta tenta atacar.
Etapas rastreadas uma a uma
Um diferencial é a possibilidade de rastrear cada etapa da produção isoladamente. Na prática, isso permite incluir no sistema atividades que ainda não têm certificação e criar novos protocolos e modelos de controle.
A solução foi desenhada para atender exigências internacionais como o EUDR, regulamento da União Europeia sobre desmatamento, e o controle do uso de antimicrobianos na produção animal. A combinação de dados geoespaciais, inteligência artificial e critérios objetivos de elegibilidade busca dar verificabilidade ao que o produtor declara.
Cooperativas de café apostam em redução de custos
No setor cafeeiro, a novidade foi bem recebida. Luiza Kreimeier, assessora técnica do Conselho Nacional do Café (CNC), vê potencial para facilitar a integração de informações, reduzir o retrabalho e ajudar a demonstrar a origem e as condições de produção do grão.
Segundo ela, o CNC acompanha as exigências dos mercados e estimula as cooperativas a testar diferentes soluções e avaliar se elas se encaixam nas rotinas e nos sistemas já usados. “A oferta de tecnologias gratuitas e validadas por instituições oficiais faz diferença, pois pode reduzir custos que hoje pesam sobre as cooperativas e acabam sendo repassados ao produtor”, diz.
Para Alves, a adequação às novas regras não deve ser vista só como condição para vender lá fora. “Nesse contexto, a adequação da agropecuária brasileira deve ser compreendida não apenas como uma exigência de acesso a mercados, mas como uma oportunidade estratégica para conferir maior transparência, credibilidade e valor à produção nacional”, avalia o pesquisador.
A ferramenta se soma a outras iniciativas do país na área. A rastreabilidade da carne bovina já havia ganhado outra frente com o chip implantado em bois, apresentado pelo Brasil na COP30 para comprovar que o animal não vem de área de desmatamento ilegal.