Meio ambiente

Plano de Flávio Bolsonaro para unificar monitoramento ambiental pode favorecer EUA e Argentina

Especialistas temem que o sistema único misture produção legal e desmatamento e tire do agro brasileiro a confiança de compradores externos
Inpe, bandeira dos EUA e Casa Rosada: Flávio Bolsonaro monitoramento ambiental agronegócio em debate

Especialistas avaliam que a proposta de Flávio Bolsonaro (PL) de reunir cadastros fundiários e ambientais, guias de trânsito animal, autorizações de desmatamento e dados de monitoramento por satélite em um único sistema pode abalar a credibilidade do agronegócio no exterior.

Segundo reportagem do ((o))eco, o risco é perder a rastreabilidade que separa a produção legal da ligada ao desmatamento. Isso abriria espaço para concorrentes como Estados Unidos e Argentina.

No plano de governo, o candidato diz que a integração reduziria a burocracia, ampliaria o acesso dos produtores ao crédito e facilitaria a comprovação da origem da produção.

Risco à rastreabilidade da produção

Para Marina Piatto, diretora executiva do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), unir os cadastros do Incra e o Cadastro Ambiental Rural (CAR) “pode parecer muito inteligente” na teoria, mas é perigoso na prática. “São processos distintos e coloca em risco a autonomia das instituições”, afirma.

Ela argumenta que, sem o monitoramento do desmatamento, a fiscalização perde assertividade e o mercado deixa de distinguir a produção regular da que está associada à derrubada de floresta. Essa distinção já é exigida no comércio internacional, como na União Europeia. “Sem isso, vai misturar o mocinho com o bandido e o agronegócio brasileiro fica com credibilidade zero”, diz.

O precedente do embate com o INPE

Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, ligou a proposta, em vídeo nas redes sociais, ao histórico de Jair Bolsonaro, que atacou o INPE durante o mandato (2019-2022). “Bolsonaro resolveu culpar o termômetro pela febre”, diz, ao lembrar a contestação dos dados de desmatamento em 2019.

Naquele ano, o diretor do instituto, Ricardo Galvão, foi demitido depois de confrontar o então presidente e foi substituído interinamente pelo coronel reformado da Aeronáutica Darcton Policarpo Damião. No mesmo ano, a revista Nature incluiu Galvão entre as dez pessoas mais importantes para a ciência.

“Hoje, o Flávio Bolsonaro quer fazer o que o pai fez”, afirma Angelo. Para ele, a meta seria tirar do INPE o monitoramento por satélite. Ele prevê boicotes e restrições comerciais: “Ao fazer isso, estamos favorecendo os nossos concorrentes: Estados Unidos e Argentina”.

As críticas se somam a outras: uma semana antes, a Ascema alertou que as propostas de Flávio ameaçam a fiscalização e a estrutura de Ibama e ICMBio. Além disso, o histórico do senador no Congresso inclui projetos para revogar a Reserva Legal e reduzir unidades de conservação.

Produção cresceu com menos desmatamento

Angelo sustenta que o controle ambiental não impede a expansão da agropecuária. Segundo dados da Embrapa, a produção de grãos passou de 238 milhões para 260 milhões de toneladas entre 2019 e 2022, alta de 9,24%. Só em 2023, já com o desmatamento em queda, ela saltou para 311 milhões de toneladas, alta de 19,62%.

Os dados mais recentes do Seeg, do Observatório do Clima, mostram que as emissões brasileiras caíram 6% em 2025, depois de recuarem 13% em 2024, e chegaram ao menor valor bruto desde 2018. As emissões da agropecuária ficaram estáveis, em 626,3 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, enquanto a produção agrícola passou de R$ 927 bilhões e a área colhida superou pela primeira vez 100 milhões de hectares.

A credibilidade dos dados já pesou no comércio exterior: em junho, Lula usou números de desmatamento para rebater o USTR, que ameaçava tarifar produtos brasileiros.

O que propõe o programa de Lula

O plano do petista aposta na recuperação de pastagens degradadas, no melhoramento genético, na nutrição animal de precisão e na rastreabilidade individual dos animais, do nascimento ao abate, além de fortalecer a Embrapa. O governo também mantém a meta de incorporar até 40 milhões de hectares de pastagens degradadas à produção sustentável entre 2023 e 2033, sem avançar sobre a vegetação nativa.