Doze das 13 principais aves florestais endêmicas da Caatinga perderam mais da metade da área que ocupavam há dois séculos. Extinções locais dessas espécies já atingem 88% do bioma.
O dado é de estudo publicado em 2026 na revista Biological Conservation, que comparou registros históricos e acervos de museus com as áreas de ocorrência atuais.
Caça de subsistência, captura para comércio ilegal e perda de mata para a agropecuária explicam o declínio, segundo os autores.
Quais aves mais perderam território
Em reportagem da Mongabay Brasil, editada por Xavier Bartaburu, a bióloga Mônica da Costa Lima, que conduziu o levantamento com Helder Araujo, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), relata ter encontrado sertanejos que nunca viram espécies antes registradas em suas regiões.
A jacucaca (Penelope jacucaca), ave de grande porte parecida com um faisão, ocupa hoje só 20% de sua área original, pressionada principalmente pela caça. O zabelê (Crypturellus zabele), também muito caçado, perdeu 80% dos quase 600 mil km² que ocupava.
Já o rabo-branco-de-cauda-larga (Anopetia gounellei), um beija-flor, perdeu quase 80% do habitat com a substituição das florestas por paisagem degradada.
O caso mais simbólico é o do arapaçu-do-nordeste (Xiphocolaptes falcirostris). Em 2020, Araujo procurou a ave nos arredores de Cabaceiras (PB) e em Curaçá (BA), onde ela foi descrita no século 19, sem sucesso. “As manchas de floresta que restaram são pequenas demais para abrigar arapaçus”, concluiu.
Por que o bioma se esgota mais rápido
Para o ecólogo Marcelo Tabarelli, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a Caatinga sofre exploração contínua e se recupera mais devagar que a Amazônia ou o Cerrado. Ele cita a caça, as queimadas usadas para adubar roças e a tradição de capturar aves para gaiolas e brigas de canários.
Lima alerta que o impacto vai além da paisagem: sem as aves, perdem-se dispersores de sementes, o que dificulta a regeneração da vegetação.
A regra dos 20% em xeque
Araujo defende rever a reserva legal no bioma. “Manter apenas 20% da área como reserva legal, como determina a lei, usando os outros 80% para produção, não funciona para a Caatinga”, afirma. Segundo ele, estudos indicam que o equilíbrio exige 50% de mata preservada perto das plantações, o que favorece umidade do solo, polinização e controle de pragas.
Projetos que dão resultado
Há exemplos de recuperação. O periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus), que perdeu 96% de sua distribuição e hoje vive só no centro do Ceará, saltou de menos de cem para 1.238 indivíduos em duas décadas na serra de Baturité, graças a caixas-ninho instaladas pela Aquasis. A próxima etapa prevê levar cerca de 50 aves para cada uma de três regiões: serras do sul do Ceará, região metropolitana de Fortaleza e planalto da Ibiapaba.
A mesma ONG monitora há mais de 20 anos as aves migratórias que descansam no litoral cearense.
Na Bahia, a proteção do gravatazeiro (Rhopornis ardesiacus) em Boa Nova reduziu o desmatamento e levou à criação do Parque Nacional de Boa Nova, com cerca de 12 mil hectares, segundo Edson Luiz, da Save Brasil.
Desde 2012, o PAN Aves da Caatinga, coordenado pelo Cemave/ICMBio, acompanha 67 espécies, 34 delas ameaçadas. Só o cara-suja e a arara-azul-de-lear tiveram aumento populacional documentado. O soldadinho-do-araripe segue criticamente ameaçado.
Os mamíferos vivem cenário parecido: estudo da UFPB estimou que 90% da Caatinga perdeu entre 20% e 80% das espécies de médio e grande porte analisadas. Em outro bioma, a Mata Atlântica, um projeto no Espírito Santo tenta devolver a jacutinga a estados onde ela estava extinta.