Um minidocumentário dirigido pelo fotógrafo Adriano Gambarini mostra a chegada das aves migratórias ao litoral brasileiro e o trabalho de pesquisadores para garantir a sobrevivência delas, batizado de A Grande Jornada.
Produzido pela ONG cearense Aquasis, o documentário acompanha o Projeto Aves Migratórias, iniciativa que desde 2003 monitora, pesquisa e defende as espécies que cruzam o continente americano rumo ao Brasil.
As filmagens ocorreram em fevereiro, no Parque Nacional do Cabo Orange, no Amapá, e no Banco dos Cajuais, no Ceará — dois pontos críticos de descanso e alimentação das aves na rota migratória.
Da pesquisa de peixes-boi às aves costeiras
A Aquasis – Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos atua há 32 anos no Ceará. Criada para proteger os peixes-bois-marinhos, a organização ampliou o escopo em 2003 e passou a monitorar também as aves migratórias que utilizam o litoral cearense como ponto de parada.
Desde 2010, a equipe realiza o anilhamento das aves em parceria com o Cemave/ICMBio, técnica que permite identificar cada indivíduo e reconstruir sua rota entre os hemisférios norte e sul. Em 2023, o projeto ganhou uma nova fase e passou a atuar também na margem equatorial, com foco no Parque Nacional do Cabo Orange, no Amapá — área de manguezais preservados que recebe milhares de aves por ano.
Registros inéditos no Amapá
As filmagens no Cabo Orange exigiram encalhar embarcações e esperar horas pela maré baixa para se aproximar dos bandos — em um dos dias, a equipe ficou 16 horas presa na lama. O esforço rendeu dois registros fotográficos inéditos para o parque: o vira-pedras (Arenaria interpres) e a batuíra-de-bando (Charadrius semipalmatus).
Comunidades como aliadas no Ceará
Já no Banco dos Cajuais, em Icapuí (CE), parte da Área de Proteção Ambiental do Manguezal da Barra Grande, a conservação passa pelo diálogo direto com pescadores, artesãos e gestores municipais. “Hoje não se faz conservação sem trabalhar com o social. São as comunidades que fazem a conservação; nós atuamos como facilitadores”, afirma Rafael Becker, analista de planejamento da Aquasis.
Ameaças ao litoral e cooperação internacional
As aves retratadas no documentário estão entre as espécies guarda-chuva do litoral brasileiro — ao protegê-las, toda a cadeia de manguezais, praias e planícies de maré também é preservada. Entre as ameaçadas de extinção aparecem o maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus rufa), o maçarico-de-costas-brancas (Limnodromus griseus), o maçarico-rasteirinho (Calidris pusilla) e o maçarico-de-bico-torto (Numenius hudsonicus).
No Ceará, a Aquasis negocia rotas com bugueiros para evitar áreas de nidificação e dialoga com órgãos fiscalizadores para reduzir riscos de colisão em parques eólicos e linhas de transmissão. Como as aves não têm fronteira fixa, a organização também mantém parcerias internacionais, incluindo com instituições dos Estados Unidos, para acompanhar as etapas da migração que ocorrem fora do Brasil.
O mesmo alerta sobre a fragilidade das unidades de conservação brasileiras foi reforçado nesta semana pela Carta de Curitiba, documento que cobra do poder público mais orçamento e novas áreas de proteção integral no país — justamente o tipo de unidade, como o Parque Nacional do Cabo Orange, que garante refúgio às aves migratórias.
