Meio ambiente

Painel do AdaptaBrasil projeta calor e chuva no Brasil com até 4°C de aquecimento

Ferramenta do governo e da RNP compara quatro cenários climáticos e chega em versão inicial, com download de dados por bioma ainda em preparação
Bandeira do Brasil sobre área alagada por chuvas intensas, ilustrando projeções de mudanças climáticas no Brasil

Gestores públicos, pesquisadores e cidadãos já podem consultar mapas com projeções de como as mudanças climáticas podem alterar a temperatura e o regime de chuvas no Brasil e na América Latina nas próximas décadas.

O painel foi lançado na terça-feira (3) pelo governo federal e pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). Ele passa a integrar a plataforma AdaptaBrasil, que já reúne indicadores de risco climático para os 5.570 municípios do país.

Quatro cenários de aquecimento

A ferramenta reúne indicadores de temperatura e precipitação, inclusive os ligados a eventos extremos, para quatro níveis de aquecimento global: 1,5°C, 2°C, 3°C e 4°C. Os mapas permitem comparar as mudanças projetadas entre esses cenários e ver como elas se distribuem pelo território.

Até agora, o AdaptaBrasil cruzava ameaças climáticas, exposição e vulnerabilidade para apontar as áreas mais suscetíveis e orientar medidas de adaptação. Com o painel, a plataforma ganha a camada das projeções climáticas.

“Em uma única interface, é possível visualizar indicadores de temperatura e precipitação, considerando os cenários de aquecimento. Isso ajuda a compreender como as ameaças climáticas podem se comportar à medida que a temperatura global aumenta”, afirmou o gerente de soluções da RNP, Christian Miziara.

Adaptação como prioridade, segundo o governo

No lançamento, o secretário de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente, Aloisio Melo, afirmou que o governo trabalha para tornar a adaptação uma agenda prioritária, estratégica e transversal. Ele citou a atualização do Plano Clima e seus 16 planos setoriais e temáticos como um esforço para “dar concretude a essa agenda tão fundamental para o desenvolvimento do país”.

O painel dialoga com o Plano Clima, apresentado em março com metas de emissões e adaptação para 2035, que o governo diz buscar agora traduzir em ferramentas concretas de planejamento.

Segundo Melo, a adaptação passa por enfrentar vulnerabilidades socioeconômicas históricas, que, na avaliação dele, foram agravadas à medida que a mudança do clima se materializa e desafia as políticas setoriais.

Para o coordenador-geral de Ciência do Clima do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Márcio Rojas da Cruz, as projeções são o ponto de partida. “Não se pensa em adaptação sem, antes de mais nada, começar a vislumbrar como será o nosso futuro do ponto de vista climático”, disse.

Primeira versão e próximos passos

Apresentado pelo pesquisador Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o painel está em sua primeira versão e tem navegação simples. Segundo ele, o instituto trabalha para permitir o download dos dados climáticos por área e por bioma.

Também está prevista a inclusão de novas variáveis. “Nós vamos incluir outras variáveis, como umidade relativa, vento, radiação e que são importantes também para os grupos de pesquisa, pesquisadores e para os diversos usuários, inclusive a população”, afirmou Sampaio.

O pesquisador sênior do INPE Jean Ometto ressaltou que as projeções são centrais no cálculo de risco, mas carregam incerteza. “A ciência vai buscando justamente trazer a informação mais clara, mais robusta e mais transparente possível para que se possa trabalhar com planejamento”, disse.

Para as prefeituras, a ferramenta se soma ao guia de adaptação climática para municípios lançado em julho pela Associação Brasileira de Municípios, material que se beneficia de projeções como as que o painel agora disponibiliza.