Meio ambiente

Barulho humano atinge o fundo do mar e ameaça vida de golfinhos e baleias

Ruídos de embarcações e atividades industriais causam estresse, desorientação e encalhe de animais marinhos

O barulho gerado por embarcações, plataformas de petróleo e outras atividades humanas está alcançando grandes profundidades do oceano, interferindo na comunicação e navegação de animais como golfinhos e baleias. A poluição sonora provoca estresse, danos auditivos e até encalhe desses animais, colocando a biodiversidade marinha em risco.

Como o barulho humano invade o oceano

Ruídos de navios, plataformas de petróleo e atividades industriais se propagam eficientemente pela água, atingindo até o fundo do mar. A água transmite o som cerca de quatro vezes mais rápido que o ar, permitindo que o barulho gerado na superfície percorra longas distâncias sem grande perda de intensidade. Isso interfere diretamente na comunicação, navegação e alimentação de animais marinhos, especialmente cetáceos como golfinhos e baleias.

Segundo Lindy Weilgart, pesquisadora e consultora da Oceancare, a audição é o principal sentido dos animais marinhos, tornando-os extremamente sensíveis à poluição sonora. As principais fontes de ruído listadas por ela são as frotas de navios em expansão e os canhões de ar comprimido usados na busca por petróleo. Atividades como construção offshore, mineração em águas profundas e pesca de arrasto também contribuem para o aumento do ruído nos oceanos.

Impactos diretos nos animais

Golfinhos aumentam o volume de seus gritos para tentar se comunicar em meio ao ruído, o que pode causar estresse e danos auditivos. Estudos mostram que, diante do barulho, eles quase dobram a duração e o volume dos assobios, mas ainda assim têm dificuldade para trabalhar em grupo. Baleias podem se desorientar, interromper a alimentação e até encalhar. O professor Patrick Miller, da Universidade St Andrews, afirma que os níveis de ruído nos oceanos estão aumentando e que isso reduz a qualidade do habitat dos animais.

Consequências para a biodiversidade e regulamentação

A poluição sonora interfere nos comportamentos naturais dos animais, reduzindo taxas de reprodução, alterando padrões migratórios e podendo causar mortalidade de espécies sensíveis. Um estudo da Universidade de San Diego mostrou que o ruído oceânico subiu em média 3dB por década entre 1964 e 2004. O International Fund for Animal Welfare estima que 250 mil embarcações estão no oceano a qualquer momento, com navios de carga emitindo até 190 decibéis.

Os sonares navais são frequentemente associados a encalhes em massa de baleias. Em 2015, a Marinha dos EUA limitou o uso de certos sonares após ligações a encalhes fatais. Canhões de ar comprimido usados na prospecção de petróleo podem produzir sons de até 260 dB, viajando até 4.000 km no oceano. Baleias-comuns e narvais já foram desalojados ou mortos em eventos ligados à poluição sonora.

Medidas e sensibilização

Weilgart relata que até mesmo pequenos sons assustam cachalotes, destacando a sensibilidade desses gigantes. A exposição persistente ao ruído aumenta o estresse, prejudica a imunidade e a reprodução. Apesar de existirem regulamentações nacionais e regionais, não há normas internacionais para controlar o ruído nos oceanos. Segundo a WWF, uma redução de 10% na velocidade dos navios poderia diminuir o ruído em 40%.