No maior santuário de reprodução de baleias-jubarte do Atlântico Sul, no litoral sul da Bahia, cientistas registram uma cena rara há poucas décadas: dezenas de machos disputando fêmeas às vésperas do acasalamento.
A espécie, que esteve à beira da extinção havia 40 anos, soma hoje cerca de 35 mil indivíduos no Atlântico Sul — quase metade da população mundial, estimada em 80 mil baleias-jubarte.
Da quase extinção à recuperação recorde
A virada começou em 1986, com a moratória global à caça comercial de baleias, seguida da proibição no Brasil em 1987 e da criação de uma área protegida no arquipélago de Abrolhos, a 70 km da costa baiana. Desde 1996, o Instituto da Baleia Jubarte (IBJ), sediado em Caravelas, pesquisa e acompanha a espécie na região, considerada o maior santuário reprodutivo do Atlântico Sul.
Entre junho e novembro, período de reprodução, a equipe do instituto navega até Abrolhos para coletar biópsias com balestra — flechas que retiram amostras de pele e gordura sem ferir os animais. “Essa biópsia permite aos pesquisadores estabelecer relações de parentesco”, explica Milton Marcondes, coordenador de pesquisa do IBJ. Foi assim que os cientistas descobriram que uma baleia nascida em Abrolhos era parente de outra avistada na ilha Geórgia do Sul, a 4 mil quilômetros dali — descoberta que ajudou a mapear a rota migratória do animal, capaz de atingir 16 metros e pesar como seis elefantes.
A identificação individual também avançou. A cauda de cada baleia-jubarte tem um padrão único de manchas, como uma impressão digital. A plataforma Happy Whale, que usa inteligência artificial para comparar fotos, já catalogou 8.300 baleias brasileiras e ajudou a registrar um recorde mundial: uma jubarte percorreu mais de 15 mil quilômetros até a costa leste da Austrália, feito noticiado pela imprensa internacional em maio.
Sucesso traz novos desafios de convivência
Em meados dos anos 1980, “ninguém sequer sabia que existiam baleias no Brasil”, contou à AFP Enrico Marcovaldi, fundador do IBJ — que confundiu o primeiro avistamento com uma pedra antes de identificar a espécie e criar o projeto que deu origem ao instituto. Em 2014, a baleia-jubarte foi retirada da lista brasileira de espécies ameaçadas, e a população não parou de crescer desde então.
O arquipélago de Abrolhos foi reconhecido em outubro como “Hope Spot” pela ONG Mission Blue, fundada pela oceanógrafa Sylvia Earle — título dado a locais-chave para a conservação marinha. O IBJ também recebe apoio financeiro da Petrobras há 30 anos; a estatal, que explora petróleo em alto-mar perto da Amazônia, financia outros projetos de recuperação de espécies no país, como a reintrodução da jacutinga na Mata Atlântica.
Para Camargo, diretor do IBJ, o crescimento da população trouxe novos desafios para “harmonizar” a presença humana com a conservação. O aumento do tráfego marítimo e das redes de pesca são hoje as principais ameaças diretas às baleias, enquanto o aquecimento do mar por mudanças climáticas ameaça o krill do qual a espécie depende para se alimentar.