Em Caravelas (BA), porta de entrada para o Arquipélago dos Abrolhos, a observação de baleias-jubarte mudou o calendário do turismo. À Agência Brasil, o operador Paulo Salomão disse que agosto, pico da temporada, já atrai mais gente que os três meses de verão.
A mudança vem de quase quatro décadas de proteção. Com a caça proibida desde 1987 e a pesca vetada no parque marinho criado em 1983, a população da espécie no Brasil passou de menos de 2 mil animais, no início dos anos 1990, para cerca de 35 mil.
A estimativa, de 2022, é do Instituto Baleia Jubarte. Para a entidade, a observação dá valor econômico à baleia viva.
Da pesca proibida à renda de inverno
Salomão começou a ir ao mar aos 6 anos, no início da década de 1980, acompanhando o pai no distrito pesqueiro de Ponta de Areia. Enjoava tanto que achava que nunca conseguiria trabalhar embarcado. Aos 18, fez o curso de piloto de embarcação da Marinha.
Com a criação do Parque Marinho dos Abrolhos e a proibição da pesca na área, ele passou a levar turistas ao arquipélago e a ensinar mergulho. O primeiro barco recebeu o nome de Teimoso. Hoje ele tem quatro embarcações, uma delas com camas para 50 pessoas, e dez funcionários.
Há cerca de dez anos, julho e agosto passaram a concentrar o maior movimento. “Antes a gente só contava com o verão, era só uma temporada que a gente tinha. Com o aumento da população de baleias, a gente passou a contar com fluxo de pessoas no inverno também”, afirmou. Segundo ele, muita gente que tinha outra profissão virou marinheiro.
Abrolhos concentra cerca de 90% das jubartes que chegam ao Brasil. Os animais percorrem cerca de 4 mil quilômetros desde a Antártica, onde se alimentam, até as águas mais quentes do sul da Bahia, onde acasalam e têm filhotes.
Distância mínima de 100 metros
Na avaliação de Eduardo Camargo, diretor executivo do instituto, o turismo de observação é uma ferramenta de preservação quando bem regulado. “O que precisa é regular isso de uma forma que não seja prejudicial para elas, mas também não ignore que você tem pessoas vivendo ali”, disse.
Os operadores precisam de autorização para o turismo náutico e devem seguir regras da Marinha e do Ministério do Meio Ambiente. Uma portaria publicada em agosto fixou distância mínima de 100 metros dos animais e permanência máxima de 60 minutos, ou de 30 minutos no caso de fêmeas com filhotes. Só duas embarcações podem se aproximar ao mesmo tempo.
Tocar, capturar, perseguir ou cercar as baleias é proibido por lei, assim como qualquer manobra que as obrigue a mudar de trajeto. A fiscalização cabe ao poder público. O instituto oferece capacitação em parceria com municípios, e algumas cidades só concedem o selo Amigo da Baleia a quem faz o curso.
Quanto vale uma baleia viva
Um estudo do Fundo Monetário Internacional e da Universidade de Duke, feito em parceria com o Instituto Baleia Jubarte e a Great Whale Conservancy, estimou que as baleias presentes no Brasil, jubartes incluídas, contribuem com mais de US$ 82 bilhões em serviços como fertilização dos mares, captura de carbono e turismo.
Para Milton Marcondes, diretor de pesquisa do instituto, o valor vai além da renda. Ele explica que as baleias se alimentam na Antártica e defecam na costa brasileira, liberando nutrientes que aumentam a produtividade de várias espécies, inclusive de peixes de interesse pesqueiro.
Essa economia depende da recuperação da população de jubartes desde a proibição da caça. Em Abrolhos, maior santuário reprodutivo da espécie no Atlântico Sul, a temporada também é marcada por machos disputando fêmeas, um espetáculo que atrai visitantes.
Visitantes contam o impacto do passeio. A mineira Deise Gomes Valente diz que se emocionou quando viu a primeira baleia. A paulista Karina Moraes saiu de Vitória e passou 36 horas no mar, com ondas de até 3 metros, até chegar ao arquipélago. Para ela, “valeu a pena”.
O instituto tem a Petrobras como principal financiadora. Ele mantém centros de visitação em Caravelas, Praia do Forte, Itacaré, Vitória e Ilhabela, além de um ponto de observação recém-inaugurado em Porto Seguro.