Lideranças yanomami foram ao Senado na terça-feira (27) para pedir proteção às comunidades, acesso a água potável e a garantia de que as políticas públicas na Terra Indígena Yanomami não parem por falta de dinheiro.
Na mesma audiência, a presidente da Funai, Lúcia Alberta Baré, apresentou o plano para recuperar áreas destruídas pelo garimpo, com R$ 37,3 milhões previstos para os próximos cinco anos.
O debate ocorreu na Subcomissão Permanente dos Povos Indígenas Yanomami, ligada à Comissão de Direitos Humanos (CDH).
O tamanho do estrago
Segundo os dados apresentados pela Funai, o garimpo degradou 63,66 km² de florestas e cursos d’água no território entre 2016 e 2024. O impacto atingiu cerca de 63,1% das comunidades consideradas no levantamento: 256 de um total de 406.
O plano prevê intervenções em 356,7 hectares nos primeiros cinco anos. A meta de longo prazo é recuperar até 1.057,8 hectares em uma década. Lúcia Baré justificou o prazo dizendo que recompor áreas degradadas exige muito tempo.
Plano construído com pajés
A estratégia foi desenvolvida em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) e resultou no Plano de Recuperação Ambiental Yanomami Ye’kwana, elaborado com a participação de lideranças e pajés. Segundo a presidente da Funai, o documento reúne o diagnóstico das áreas afetadas e aponta consequências como o sumiço da caça e dos peixes, provocado pela contaminação dos rios por mercúrio e pelo barulho das máquinas, o que agravou a insegurança alimentar nas aldeias.
“Todas as ações seguem sendo executadas na Terra Indígena Yanomami com muito compromisso, seriedade e diálogo com os povos indígenas”, afirmou. Ela anunciou para novembro uma oficina de prestação de contas em que as lideranças do território vão conhecer a situação de cada projeto.
O que as lideranças cobram
Edson Baré, diretor da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, reconheceu avanços na educação, com mais escolas e professores. Ele disse, porém, que a falta de recursos ameaça a manutenção dos projetos, que também dependem do diálogo entre instituições e do envolvimento das prefeituras. “Uma preocupação premente é conseguirmos levar água potável a muitas das nossas regiões”, afirmou, ao associar o problema ao garimpo.
Waihiri Hekurari Yanomami, presidente da Urihi Associação Yanomami, pediu proteção especial a crianças e mulheres, segurança alimentar e apoio do Congresso às garantias previstas na Constituição. “Somente com o diálogo vamos conseguir nossos objetivos”, disse.
Os efeitos do garimpo sobre a saúde no território não se limitam à água. A atividade já foi associada a um aumento de 24% nos casos de malária a cada 1% de área garimpada, segundo estudo que embasa um novo sistema de alerta na Amazônia.
Próximos passos
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que preside a subcomissão e a CDH, disse que vai levantar quanto os órgãos responsáveis destinaram à recuperação ambiental. Ela também anunciou uma audiência pública em São Gabriel da Cachoeira (AM) ainda naquela semana.
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social citou a contratação de 25 educadores sociais indígenas, todos yanomami, para as equipes do Sistema Único de Assistência Social (Suas), além de 204 certificados emitidos em oficinas realizadas com as comunidades.